segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Que é que a gente vai fazer disso?




          Cara, e se eu estiver gostando mesmo de você? Que é que a gente vai fazer disso? Dessa minha vontade absurda de te querer por muito mais que duas horas e um orgasmo. Dessa minha ansiedade de ter que esperar a semana passar pra eu poder te ver de novo. Dessa minha necessidade de ter seus olhos poderosos sugando qualquer restante do meu controle quando estou perto de você. Dessa minha fascinação pelo seu sorriso que a mim soa tão ingênuo e pueril. Dessa câmera fotográfica milimétrica na qual meus olhos se transformam ao registrar cada detalhe marcado no teu corpo; suas pintinhas tão delicadas, no rosto, do lado direito, um pouco acima dos pelos magnéticos da tua barba; e não só ali, mas também em todos os outros cantos escondidos da sua pele clara que me fazem sentir privilegiada em poder saber que elas estão ali. Que é que a gente vai fazer disso? Das suas mãos que se prendem à minha cintura e dos seus dedos que me fazem contorcer o quanto posso. Dos seus gemidos de prazer enquanto te sinto por toda extensão que minha língua permite. E da sua retribuição não menos prazerosa. Que é que a gente vai fazer das mensagens trocadas com uma malícia que não sobressai o meu carinho? E das vezes em que você quiser dormir sobre o meu braço que torno imóvel pra que você não acorde. Dos seus pés branquinhos e tão bem cuidados que eu sempre quero massagear na tentativa de aliviar com toda vontade um pouco do seu cansaço de todo dia. E dos meus dedos que se perdem em meio aos seus cabelos curtos querendo nunca mais voltar. Que é que a gente vai fazer desse meu medo terrível de me apaixonar perdidamente por você? De me por a prova dos meus próprios monstros em troca da liberdade do meu coração. Que é? Que é que a gente vai fazer? Dessa minha compulsão pela sua voz. Dessa minha veneração pela tua beleza. Dessa minha adoração pela tua barba que arrepia todos os meus poros quando vai de encontro à minha nuca. E até da sua barriga que eu adoro que não seja malhada. Que é que eu vou fazer pra acabar com essa desconfiança do que eu sinto? Que é que eu vou fazer pra exterminar todos os indícios de resistência á você? Ainda que seja pra eu quebrar a cara e o coração outra vez; ainda que seja por você. Que seja só por você. Você que tomou o lugar de tantos altos, e loiros, e sarados, e estúpidos, e de outros bilhões que poderiam me habitar. Você que eu escolhi pra ocupar esse lugar vazio há tanto tempo – se é mesmo que isso se escolhe. Você que ganhou esse espaço em tudo que é meu e que agora não me deixa mais só, tampouco livre das lembranças diárias. A vaga é sua, meu bem, e como promovido à minha paixão, está encarregado de decidir a próxima cena desse nosso espetáculo ainda sem roteiro a ser dirigido. A final de contas, que é, então, que a gente vai fazer disso?  

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Cuidado! Produto tóxico



(...) E como se não bastasse essa minha idiotice súbita por você, hoje fiz pior. Passando pelas prateleiras da farmácia, ao invés de me atentar a qualquer remédio que fosse efetivo contra essa doença com a qual você me contaminou, vi em destaque, à minha altura e disposição, dezenas daquele desodorante que você usava e entupia o quarto com essa fragrância forte, esse cheiro de homem que por tanto tempo foi meu perfume favorito. No começo estranhei a essência do dorso da minha mão. Fazia tanto tempo que não te sentia que demorei a reconhecer esse cheiro impregnado na minha pele. Mas a memória do corpo... ah, essa consegue ser ainda mais intensa; e depois das respirações profundas que pareciam fazer multiplicar o tamanho dos meus pulmões pra que coubesse um pouquinho mais de você aqui dentro, de novo te senti. Me veio pra lembrar que era esse mesmo o aroma que você exalava enquanto me intoxicava de amor. Pronto. Já pode começar a rir da minha cara agora mesmo, depois de ler essa babaquice infinita. Tô merecendo, eu sei. Mas enquanto você ri e debocha, eu continuo aqui, sentada, escrevendo, e entre um minuto e outro levando minha mão direita ao encontro das minhas narinas asfixiadas por você. (...) 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Na linha (editado)


Eu não queria escrever sobre você. Depois eu quis, mas não me deixei. Aí passou a vontade e eu já não queria outra vez. Mas eu tô tão sem ter o que fazer que eu acho que isso me parece o melhor pra hoje que tô meio down e sem nenhuma programação pra noite. O brigadeiro eu já deixei pronto na cozinha. Tá esfriando sobre a mesa pra me fazer companhia ao longo dessas palavras melancólicas que sei que logo virão. Coisa de gente depressiva mesmo. Que quando se vê frente a um possível conflito amoroso acha que o mundo vai acabar, que o sofrimento dará as boas vindas e no fim das contas dispensa qualquer esperança à vida afetiva. Repito: tudo por um possível conflito!
Mas já que agora eu comecei não vou ficar enrolando, então. Se o que tava me impedindo de voltar aos escritos era o medo de que as palavras me trouxessem involuntariamente e avassaladoramente pra mais perto desse sentimento atrevido que ando tendo por você, já era! A sorte foi lançada. Á essa hora, também, o brigadeiro já tá no ponto certo pra ser devorado entre uma colherada e outra bem aqui do meu lado, na doce ilusão – literalmente – de que esses vômitos literários que costumo expelir me tragam algum resultado ou solução para as minhas paranóias e complicações emocionais (como nunca trouxeram), que não seja o meu ego inflado em alguns casos relendo inúmeras vezes a ‘obra’ que fui capaz de redigir. Bom, ao menos a minha auto-estima esse exercício da mente consegue ressaltar.
Sabe que eu não sei como é que eu fui deixar isso acontecer? Eu até que tava conseguindo, sabe-se lá como, me apaixonar outra vez. Mas apaixonar mesmo, deixando entrar em cena aquele friozinho na barriga, a insegurança ao falar; essas coisas bobas e tão gostosas que caracterizam o florescer da paixão. Mas acho que ainda era feto, semente que não se desenvolveu, tampouco desabrochou. Vai ver que não resistiu às milhas e milhas distantes que o avião levou temporariamente pra longe e que em troca me trouxeram uma situação inenarrável – por mais que agora eu esteja aqui tentando contá-la.
Protagonizando: o cara! Pele clara, voz aveludada e de bom tom, um nariz empinado e pontiagudo que exprime a dose exata de delicadeza para um rosto masculino, e que assenta tão bem com os olhos que ainda não sei se são verdes ou azuis porque eles sempre me hipnotizam quando estão fixos e de encontro aos meus. Ah, o seu olhar... Não bastassem as íris claras, as sobrancelhas arqueadas com aquele contorno que nunca é certo numa face masculina dão uma graça a mais ao rosto que tanto me fascina. Jamais poderia me esquecer de lembrar também da barba que é praticamente um ímã para as minhas mãos, e lábios, e nuca, e costas, e lábios outra vez, e todo o corpo. Esses pelos que pra mim são fundamentais em um homem, nele esbanjam beleza. Sensualidade. E em mim, desejo.
Pois é, meu bem, já pode se pronunciar e bater no peito orgulhoso por se reconhecer como o dono das características mencionadas logo ai, porque é de você mesmo que eu falo. E falo com fervor! Com vontade. Porque é assim que tenho ficado, ainda que receosamente, quando o assunto se volta pra ti. E isso me assusta, viu. Temo essa sensação que meu peito por hora experimenta. Não sei bem se é só desejo. Se é encanto por teu jeito moleque; menino inocente ainda que de corpo crescido, ou se o pior tá mesmo acontecendo e a paixão resolveu de novo me visitar depois dessa espécie de aborto espontâneo que sofri após sua chegada – em relação àquele outro projeto de sentimento que quis começar a palpitar por essas terras aqui de dentro. Aí eu te peço: se minhas suspeitas se confirmarem, fala pra mim que não! Não em hipótese alguma. Sei lá, me mostra algum defeito seu que me faça não querer nem por decreto sua respiração ofegante próxima a minha boca. Me trate com frieza, com descaso se for o caso, e me ignore também. Me decepcione, seja grosso, estúpido, faça com que eu me desiluda totalmente dessa figura que me cativou em progressão geométrica pra que eu não mais sinta a necessidade dessa sua barba roçando na minha nuca enquanto você dorme me abraçando com a mão sobre a minha cintura. Não precisa ser verdadeiro nem precisa ser você porque eu também não acredito que seria, mas sei lá, por um instante só. Tenta, inventa! Só não continue sendo esse homem que tem ganhado parte dos meus dias em pensamentos e recordações, falas reprimidas, e olhares perdidos e distantes dentro de casa e mais do que atentos em meio às ruas da cidade na esperança de te ver no shopping, no trânsito ou na próxima avenida que eu venha a cruzar. Só não continue me encantando nessa velocidade exponencial porque meu tombo pode ser grande, e se continuar desse jeito, ele logo virá a dividir a cena com o meu desconcerto que às vezes é tão grande na sua presença. Só não continue sendo diante dos meus olhos nus esse homem dócil que adormece sobre os meus braços como uma criança inocente que mal sabe dos perigos dessa vida. Simples assim, só não continue. Deixe que o único doce permitido a participar da minha rotina seja esse mesmo brigadeiro que agora já está pela metade enquanto te lembro e nos lembro. Mas que não seja você. Você que vem se mostrando tão prazeroso quanto essas colheradas que na segunda-feira só me trarão arrependimento.
E quanto prazer! Um dos grandes responsáveis pelos flashes que já disse serem cada vez mais freqüente na minha rotina atualmente entediante dominada pelo ócio das férias. É só eu fechar os olhos que logo me surgem os seus quando pesa seu corpo sobre mim; eles se cerram, quase se fecham inteiramente, entregues à satisfação que compartilhamos e proporcionamos aos nossos corpos: nus, suados, exalando além dos nossos fluidos, a complacência que é destaque em nosso tato, no nosso toque. Me enche de tesão poder ver seus espasmos mais íntimos e sinceros, sua rendição a mim que naquele momento, ao menos, te possuo. Me delicio ao te ver de pernas trêmulas, gemendo, e às vezes contendo a respiração que parece difícil sair em meio a essa explosão de hormônios que correm aí dentro. Me deleito com essa imagem e ponho um sorriso malicioso na boca. E na boca ponho tudo o que você quiser.
            Á essa hora eu já nem me importo mais com o meu prazer porque o seu já transcendeu em mim. E quando ele passa você continua a me estimular com sua inaptidão a qualquer tipo de resposta que te possa ser cobrada; mínima que for, porque nos minutos seguintes você não consegue levantar um dedo sequer. É essa malemolência que me satisfaz; o que me contempla é esse momento sublime entre nós dois: saber que fui eu quem te causou essa turbulência de sensações maravilhosas.
 Missão cumprida.
            Mas já não tenho mais tanta convicção de que isto me basta. De que seu prazer é suficiente pra me manter à sua disposição toda semana, embora eu queira que isto não se cesse, é óbvio. (...) Soa um tanto quanto contraditório pra quem se põe em minha frente e vê essa renúncia que faço a uma possível paixão. Logo eu que tenho dito a quem quiser ouvir que meu único receio é de nunca mais me apaixonar louca e perdidamente por alguém. Entretanto, as circunstâncias dessa aventura não me deixaram criar asas pra voar e explorar esse sentimento de toda maneira que me coubesse. Seria tortura, masoquismo – uma experiência suicida. E esse tipo eu já conheço e não quero relembrar, tampouco reviver. Deixo que nas minhas memórias restem apenas os sorrisos que você me deu, os prazeres que me ofereceu, a minha loucura que me permitiu te conhecer e todas as associações que serão inevitáveis.
Ainda não sei como seremos nessa vida. Se voltaremos a nos ver, se nossa – até então – última vez me servirá de reticências para os próximos dias, se a esperança vai me consumir, se vou me negar a prosseguir, ou se a você vou me render. Isso só quem vai poder dizer são as surpresas que a vida nos reserva, que tanto existem que se comprovam com o que já nos proporcionaram até hoje. Minha vontade era logo por um ponto final nessa angústia de não saber se ainda posso esperar uma ligação sua, mas acho que minha paciência não foi testada o suficiente e talvez por isso eu ainda deva roer algumas unhas, comer compulsivamente, voltar às suas fotos, reler essas palavras e ouvir algumas músicas que me faça te ter de volta em pensamentos até que alguma nova constatação me coloque diante de uma postura fixa em relação a você, seja pra ficar ou pra, de uma vez por todas, entender que você na minha vida foi apenas um flash, uma estrela das mais brilhantes que passou por esse meu céu avermelhado e pulsante envolto de artérias e muitos sentimentos retidos. Por enquanto eu me despeço e hoje fico só com o meu brigadeiro, pois, por mais que ele ainda possa me trazer algum prejuízo, ao coração, pelo menos, sei que me fará bem e este eu preciso recuperar. 

sábado, 21 de julho de 2012

O amor (entre suas infinitas vertentes)


Amor, amor. É mesmo surpreendente tamanha certeza do que se sente sem nenhuma explicação que comprove esse habitante fixo dos corações. Sabe-se de sua presença apenas pela grandeza de amar. Sem auxílios nem motivos. Razões inexistem. Ah, o amor... quando vem, nega passagem pra qualquer outro flerte que não seja aquele único que aquece de tal maneira que chega a corar as bochechas dos mais acanhados. E quando vem, é exibido sem resquícios de moderação no sorriso largo estampado na cara dos apaixonados. E quando vem, não esconde os poros e pelos de todo o corpo ouriçados pelo toque do outro na pele dos mais ousados. E quando vem, fere mais do que chamas vívidas o peito de quem sofre por não ter por perto o abraço que poderia poupá-lo de tanta dor. E quando vem, vira de cabeça pra baixo o mundo dos intensos que se entregam de todas as formas que conseguem a esse sentimento que transforma a vida. E que não pergunta. Não pede licença. Se auto afirma e que se cuidem aqueles que resolvem afrontá-lo. Estes compram não só uma briga, mas uma guerra inteira com a maior inimiga de toda permissividade que defende o amor: a explicação. E repito que não há porquês dentro da loucura de amar. Ele existe e independe do corpo escultural, da voz sedutora, do beijo que faz desaparecer o fôlego, das palavras bonitas, dos poemas românticos, das declarações públicas de afeto e do sexo que queima as calorias que uma hora de esteira não seria capaz. Estas são só consequências. Quem procura as raízes desse sentimento, o faz em vão. É que nunca se sabe exatamente quando foi que ele nasceu. Se foi logo no primeiro beijo ou depois de uma discussão que tinha tudo pra ser irreversível. É um processo contínuo, dormente, que se arma inteiro até estar resistente o suficiente para dar o bote. E só ai, então, é que se dá conta de que ele vive. Quando já está ali. Plantado. Maduro. Trancafiado entre as artérias e pulsando no ritmo das batidas vitais. E ninguém consegue movê-lo. É sedentário no peito nômade de quem o teme e por isso foge. Mas o amor é paciente. Enxerga além de tudo que o afasta de seu verdadeiro lar e espera. Espera o tempo com o tempo e pelo tempo – a bússola sem direção dessa viagem. Espera o tempo passar, espera o tempo chegar. Espera com uma paciência incompreensível de quem já não mais se afeta pela demora. É a desesperança alimentada pela própria esperança. É a crença naquilo que já perdeu todos os indícios de credibilidade. Mas ainda assim é crível. Por quê? Porque é amor. E amor não se explica, apenas se sente. Sente-se e espere que ele virá. Doce como chocolate quente em dias chuvosos de carência e sentimento aflorado. Inconseqüente, metendo os pés pelas mãos em cada tentativa de acertar. Azedo, contaminado pela pressão incessante de um mundo capitalista. Voraz, com pressa de viver uma história intensa em meio a tantos corações descartáveis – corra, antes que este também se vá pela lixeira detrás da porta! Complicado, recheado de obstáculos-testes que ponham á prova o sentimento alheio. Ardente. Ciumento. Doentio. Dependente. Livre. A maneira não importa; ele virá. E quando isso acontecer, evite os diagnósticos. O amor é subjetivo demais pra ser metodizado, por isso, não defina nem limite a expressão mais bela de todo ser que é vivo e ama. Alie-se por mais uma vez ao tempo, pois ele sim é o único capaz de destrinchar e acalmar todas as turbulências que o amor provoca. E por fim, compreenda. Já disse Fernando Pessoa que “tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.” Ninguém melhor do que esse sentimento louco e revolucionário para oferecer a cada coração o instigante desafio de tentar desvendá-lo enquanto em vida estivermos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Peito aberto. Cabeça limpa. Alma lavada.


     É essa dúvida que me agoniza. É por não ter a resposta de que tanto preciso, o motivo da angústia que me tomou, e ela só não me faz roer as unhas porque nunca fui adepta desse vício que nada soluciona. E tudo se resolveria com uma confirmação. Simples. Positiva ou não, era a resposta exata que me poria de volta à vida ou então me afogaria ainda mais em mim mesma. E em você. Sempre você que mesmo não sabendo, penso, ainda comanda a entrada de qualquer um do sexo masculino que queira se aproximar desse meu coração já empoeirado, porque aqueles que nem sequer se igualam à sua excelência não são mesmo dignos de me habitar.
     Puta que o pariu! Onde é que eu estava com a cabeça quando te dei a liberdade de me tomar por inteiro sem ao menos um questionamento, á princípio, fazer? Também não sei e a procuro ainda com falsas esperanças de encontrá-la perdida por aí. Talvez eu tenha mais sucesso na busca partindo do lugar onde tudo nasceu; onde nos encontramos e eu, então, comecei a me perder. Mas no chão, embaixo da cama que foi onde ficou sua camisa naquele dia, eu não vejo nada. Em cima, em meio aos edredons emaranhados sobre o lençol, idem. Nada pelo chão, nem pelos degraus da piscina, nem mesmo próximo aos bancos que repousavam a preguiça coletiva. Os corredores estão vazios e também não há rastros sobre a mesa da cozinha ou a da varanda que ao menos por duas vezes nos fazia vistos durante o dia.
     Sem bons resultados, desisti. E ela, meses depois, foi quem aos poucos começou a me perseguir. Feito zumbi. Fantasma que me fez ver gradativamente as sombras desse problema. Você ainda é meu maior problema. É o que me aprisiona, o obstáculo que me atém a cada novo passo em busca de progresso que tento dar. Progresso esse que por todas as vezes falha. Tento, tento, e mesmo que a cada dia mais distante, você ainda me aparece; zumbi mesmo, não há outra descrição mais próxima da minha realidade. Tá tudo bem, tá tudo certo quando me vem sem mais nem menos uma tempestade torrencial de você, de nós. E te confesso que este fardo eu já não sei mais como carregar. Desde que abandonei essa idéia racionalmente ilusória de querer uma profilaxia pra doença que você plantou em mim – e talvez eu nunca devesse ter assumido essa loucura – tenho constatado que vez em quando é melhor deixar que os impulsos sejam contidos pelo bom senso, pela razão da vida porque assim a gente se poupa de tudo que pode vir a ser sofrimento, possíveis até de alcançar o ridículo. Porque cheguei também a me ridicularizar por você. Tanto, que quando você estava ali ao meu lado, entretanto abrigando por hora o corpo de uma outra a quem escolheu por falta de opção – e tempo – dei continuidade á sua tarefa de tapar os meus próprios olhos e te quis bem, te preparei um suco, alguma coisa leve, não me lembro o quê – tudo em prol do seu estômago que aí dentro urrava e te doía. Talvez eu devesse mesmo ter te deixado sentir a queimação incomodando, quem sabe assim você comprovaria na pele a mesma repugnância que eu sempre engoli goela abaixo e que naquele momento se repetia, tomada pelo nojo de vocês dois.
     Com ela ali frente a nós, sobrando em meio a tanto desconcerto e coadjuvando nosso desconforto, o qual enfeitou por alguns poucos longos minutos o quarto em que você dormia, você parecia sentir pena de mim, e suas tentativas compassivas de me fazer cega diante dos fatos escancarados embaixo do meu nariz foram ainda mais patéticas. Espera ela sair da sala e vem pro meu quarto. Ah, por favor, hein. E eu, burra – é, burra – até achei legal da sua parte naquele momento, querer me evitar maiores decepções. Me resumia em migalhas, no seu resto, no seu pó. E tenho náuseas só de lembrar que cheguei a acolher o meu lençol que você, provavelmente num momento fora de si pra cometer tamanha falta de respeito, pegou da minha cama pra forrar seu gozo nutrido apenas por saturação, egoísmo e necessidade de por pra fora aquilo você queria comigo, mas que não teve porque ao menos uma vez na vida te foi cobrada a decência para com uma mulher.
     Desprezível. É isso que você deveria ser na minha rotina, mas me escravizei por tanto tempo pelos seus maus tratos – que espero terem sido apenas inconscientes –, que acho que me acostumei com o castigo de gostar de você. Estou mesmo condenada a pagar a pena eterna desse amor sem uma força mínima que me ajude a recorrer, que dirá ser absolvida. E é mesmo um castigo você na minha vida. Me cansa, me esgota e me faz idiota. Uma passível dos mais elevados níveis. Na verdade, acho que nem palavras a esta altura conseguem traduzir o quão pequena e menosprezada me sinto por ainda te dar a relevância que você em dia algum mereceu. Embora enraivecida, indignada, inconformada, e intolerante eu esteja exatamente agora, me atrevo ainda a dizer que não te quero mais. Mesmo estremecida totalmente, dos meus pés trinta e seis ao meu último fio de cabelo dourado, quando te vejo e surpreendentemente, por ti sou ignorada. Mesmo quando você fala comigo e eu concordo com todos os seus pontos finais do nosso discurso quase sempre indireto, porque sei serem em vão todas as minhas tentativas de te convencer de qualquer contrário. Mesmo quando te vejo feliz e tenho plena consciência de que deste seu estado emocional eu não fui participativa em um único suspiro sequer. Mesmo que. Mesmo assim. Mesmo quando. Mesmo sem. Mesmo agora. Mesmo não sabendo por quantos dias mais esse sufoco vai se estender.
     A tal dúvida que deu início á esse cuspe na sua cara já não é mais tão derradeira para a minha própria paz. Primeiramente porque sei exatamente o que acontece no seu campo de batalha nesse momento, e não sou tão desalmada a ponto de me ver como o centro do universo enquanto outra gravidade sobressai meu sentimentalismo. Também em razão do futuro não tão distante que me aguarda repleto de nova gente. E ainda pelo seu comportamento pueril, indigno do restante da minha paciência com a qual você, sem moderação alguma, se esbaldou o quanto pode. Além de você por inteiro, não queria também que sua curiosidade que sei ser grande, te trouxesse até aqui fazendo com que você lesse o que desabafo agora, porque não tenho a pretensão, por mais nem uma vez, que você se dê o luxo de ver que ainda te cogito, que te escrevo, te penso. Nem que você saiba que ainda não é tão indiferente na minha vida, embora pessoalmente isso seja tudo que eu tento mostrar e, impressionantemente, é também o que venho conseguindo alcançar – minha neutralidade com e sem o seu contato.
     Você me apodreceu, me fez desacreditar de todas as coisas boas que um dia já pensei existir na vida de quem nos deixamos amar. E brotou em mim o medo. Tenho medo de entregar em mãos a minha felicidade pra qualquer nova pessoa e por mais uma vez me decepcionar. Por isso, talvez, é que permaneço na tortura de recuar e agüentar sempre sozinha as toneladas de conseqüências que, descansando sobre minhas costas, se mostram monstruosas em quantidade, densidade e aderência. Nunca fui exageradamente religiosa, mas finalmente, Deus. A única explicação para que tal vitória grandiosa, diga-se de passagem, ocorresse. Se mostrou indubitavelmente mais do que justo e presente na minha vida submissa e devota a quem sequer um dia santo foi – quiçá seria e também nunca será – quando me fez de uma vez por todas perceber que você não vale a pena. Que nunca valeu. Apenas o que me sobra agora é dó de quem ainda se rende e se prende a essa armadilha camuflada em meio aos dentes bonitos que enchem uma boca descompromissada e inconfiável – por mais irônico e duvidoso que isso possa parecer para alguns e algumas. Somos agora dois desconhecidos. Dos mais íntimos que, paradoxalmente, podem existir. E sabe do quê mais? Tô preferindo que seja assim. Uma vez que nos decepcionamos tão ferozmente assim, não há memória do passado, por mais bela e impecável que seja, capaz de sustentar a decadência de uma admiração jogada no lixo – ainda mais pelo seu próprio dono.

domingo, 29 de janeiro de 2012

"Preciso demais desabafar"


     Não cheguem perto. Pelo menos por esses dias, não, assim com certeza será melhor pra mim e pra quem pelas redondezas estiver. E olha que eu nem tô de TPM, hein. Aliás, isso não me pertence, mas algum parente meio torto e de sintomas parecidos com o dela, resolveu por hora aparecer e se apossar desse corpo que carrego. Tudo me irrita, nada me agrada, tampouco anda me satisfazendo. A cidade não colabora, mas o tédio em contrapartida, não me faz esquecer por um minuto sequer da sua presença impiedosamente assídua no meu dia a dia. Férias? Pelo andar dos fatos preferiria que elas já tivessem me dado adeus há dias, semanas talvez. Mudaria a ordem das coisas: pegaria no batente o quanto antes. Na faculdade pra matar de vez a curiosidade que me aguça tanto sobre o curso que pretendo seguir fielmente, no inglês pra acabar definitivamente com esse sofrimento prolongado por nada menos que seis anos, no espanhol pra que ao menos uma vez na semana eu tenha meus risos garantidos por duas horas, e nas possíveis e futuras atividades remuneradas, porque quem sabe assim eu dependa um pouco menos dos meus progenitores quando não tenho a mínima vontade de dar satisfação da finalidade do dinheiro que, com tanto receio, os peço. E em troca, pediria folga das pessoas. De umas que me cansam, das outras que me dão enjôo, daquelas que ridiculamente me ignoram. Dos fúteis, improdutivos, supérfluos e desnecessários. Irritantes – ao menos a mim.
     Quero mesmo é sentir os ares desse ano que, de novo, ainda não conseguir avistar um único dia. Tá tudo igual, tudo na mesma. Talvez eu precise mesmo é da rotina pra me convencer de que não sou mais o ano que há quase um mês se despediu da humanidade. Se for assim, que venham então os meus dias programados esbanjando novas responsabilidades e ocupações úteis à minha cabeça que anda cansada da mesmice, à minha cabeça que ainda não passou do trinta e um de dezembro, à minha cabeça que insiste em se ligar como um ímã em pessoas que de dois mil e onze não deveriam sair. Namorado eu não sei o que é, nunca foi minha prioridade saber, mas talvez eu esteja sentindo pela primeira vez a necessidade de um. Um que me diga, olhando nos meus olhos, que sou mais do que a carcaça que os meros moleques anteriores viam, pois por mais homem que cada um deles se julgasse, nunca passaram de meninos em uma fase indefinida posterior á puberdade; fase que, indubitavelmente, não merece tão precocemente o título de ‘homem’. Algum que não recrimine a minha obsessão pela liberdade que é indispensável na vida de qualquer pessoa, porque antes de casal e dois, todos eram únicos e sós. Qualquer um que não me queira pra gozar os problemas do trabalho, o ego mal massageado pela amada que o rejeita, ou os hormônios a tempo de explodir o corpo que habitam se não forem o quanto antes expelidos.
     Mas essa minha personalidade esférica me condena e põe por água abaixo todos os planos e diálogos que minuciosamente preparo em mente. Posso ter sido mal educada aqui, grossa ali, indiferente acolá, e o motivo certamente foi algum desses que me cutucam provocadores. Se não um, todos eles. Não sei ser direta o quanto preciso, e dessa forma evito conflitos com todos que me rodeiam pra deixar que o circo todo se arme aqui dentro – espetáculo privado. Penso demais e sozinha, e as conclusões as quais alcanço, são sempre hipotéticas. Libriana, sempre me ponho em dúvida, e me perco ainda mais nesse labirinto de possibilidades e cogitações, mas nunca certezas. Sofro pela indecisão, por deixar que tudo passe sobre mim, não falo e me castigo. Parece feitiço, um desses que nem um banho com todas as superstições existentes consegue desfazer. E apenas quando o tempo fecha e a chuva se metamorfoseia nas lágrimas que escorrem habilmente minhas bochechas, e fazem o contorno certeiro do meu queixo até descerem de encontro ao meu pescoço, é que transponho em minha face tudo aquilo que minha boca se nega a balbuciar. Falar nunca foi meu forte. Quem quiser me entender, que me decifre, que me sinta, me leia, mas não me fale, não enquanto palavras tivermos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ao eterno estranhamento entre os dois sexos


     A que mulher, afinal, buscam os homens? Me deparo frequentemente com episódios nauseantes acerca dos pré requisitos que hoje em dia os machos julgam indispensáveis naquelas que cogitam ser suas damas. E pra ser sincera os incompreendo. Não sei o que toma conta da cabeça masculina e a faz ser tão primitiva por diversas vezes ainda no terceiro milênio. Primitivismo esse que dá raiva. E muita. Contra argumento do tipo “mas eu posso porque sou homem” ou “isso não é coisa que mulher se faz” é decisivo pra minha birra, e na raiva, a vontade que prevalece é a oposta do que desejam os marmanjos embora esta seja unicamente pra contrariar, fazer pirraça mesmo, e mostrá-los que não somos assim tão dependentes de suas aprovações e de seus pacotes quase sempre incompletos.
     Talvez a independência que nós, mulheres, viemos construindo por séculos é uma das pulguinhas que tanto comicha o ego absolutista dos dotados de testosterona. Em um passado significativamente distante, estávamos á mercê de quase todas as suas vontades. Pra sair, usar certa roupa, dirigir, entre outros atos que a sociedade nos escondia. Passado. Mas não caiu ainda em suas mentes – nos casos mais graves, retrógradas – a idéia de que tal regime, atualmente apenas psicológico, perdeu seu trono há tempos, e que a mesma palavra agora só designa no universo feminino um bem que fazemos em prol do nosso corpo e vaidade quando pensamos ser necessário. Pois é, darlings, deu pane no sistema, ou melhor, naquilo que vocês projetaram com tantas tentativas perfeccionistas: nós. Fugimos da receita, perdemos a forma pra desenhar a nossa própria, a nosso gosto e moderação, a qual vem sendo diminuída a cada dia com maior intensidade porque a vontade de se satisfazer é preferência entre nós, e por isso independe dos rótulos atribuídos devido ás ditaduras e pensamentos machistas, queiram vocês ou não, estamos na pista.
     Não dá pra negar que estamos, sim, sujeitas a mediocridade implantada na cabeça e nas atitudes de alguns que esteriotipam dada mulher pelo que de primeiro conseguem nela avistar. Tanto que algumas ainda têm coragem de condizer com seus enamorados quando e onde os hormônios loucos do rapaz dela precisarem. No cardápio temos como exemplo a bonequinha. Essa é a menina recatada, delicadinha, meiguinha, magrinha, pequenininha, educadinha, e vem com ela o bônus de todos os -inhas que o dicionário oferecer. Ela é do tipo que falta do encontro marcado há dias com as amigas pra dar espaço ao rapaz mimado que não aceita jantar outra coisa senão aquilo que só a única sabe fazer. Esquece-se de si mesma pra agradar ao outro. É indicada àqueles que costumam mal dizer de todas as moçoilas da cidade porque sabem que têm em casa o seu enfeite pra estante da sala, o troféu a ser exibido aos amigos trogloditas: a impecável que nunca os decepcionam, e o preço a se pagar, meus caros, é que elas também nunca vão surpreendê-los – nem para o mal, menos ainda para o bem. Conformem-se. E vocês, mocinhas, serão mesmo por toda a vida apenas o bichinho de estimação do seu talvez amor, porque ao pisar na rua, ele olhará sim pra todas as bundas que em sua frente passarem e as desejará com a mesma fome de quem está há meses de jejum. Cabe a vocês tomarem partido da situação e se posicionarem de acordo com o que se fazem valer: uma mulher ou uma estatueta?
     Em contrapartida aos bibelôs estão as famosas periguetes. Estas não deixam que seus machos as exponham porque elas fazem isso por si só. E da pior maneira possível: a mais vulgar que conseguem ser. Seja exibindo a (pouca) roupa que vestem, ou pelo jeito exagerado como mascam um chiclete e trocam algumas palavras com os homens – porque os prováveis assuntos são incapazes de fazer fluir uma boa conversa; falta conteúdo –. Isso basta pra que seja percebido logo de cara a que vieram: não conseguem estar perto sem tocar, falar sem gritar, e seduzir sem escancaradamente incitar. Em suma, interesseiras, são uma boa escolha aos one night stand já que seus intuitos não são assim tão distintos dos deles. Talvez essas até mereçam o título que carregam porque não sabem no mínimo se colocar em seus papéis de mulheres ao invés de objeto. Ônus da espécie: homens, esqueçam as várias boas oportunidades que poderiam surgir com moças que valem mesmo a pena quando resolverem passar as mãos pelos pêlos oxigenados das pernas da dita cuja. Vocês acabaram de perder muitos pontos, valiosos por sinal, com as promissoras.
     E pra finalizar destaco as bem resolvidas, donas da minha plena admiração. São aquelas que xingam e riem sem se preocupar com a opinião alheia. Valorizam o corpo que têm e não se vendem por um carro importado ou um restaurante caríssimo. Não se negam. São prioridades de si próprias. E se a vontade for de transar num primeiro encontro, que assim seja. Elas sabem que nenhuma das atitudes tomadas põe em questão seu caráter, tampouco sua personalidade porque quem de fato as conhece, sabe também que passar vontade é uma sensação que nunca esteve presente em seus dias – desde que a tentação da vez não as permita que se desfaçam dos valores que conduzem. Quanto aos outros, eles são só os outros e não somam em nada na primeira suposta má impressão que podem cultivar em seus pensamentos limitados; tais quais aqueles que a sociedade, com tanta firmeza, impõe acerca das donzelas. Estas são destinadas apenas aos ousados, livres, desbravadores e independentes, porque assim elas também são. Têm seus próprios compromissos e não se resumem basicamente na vida do parceiro que, se as quiserem mesmo ao seu lado, terão de dedicar-se ao máximo em fazê-las felizes, porque á elas não faltarão pretendentes a cada esquina virada já que a auto-estima e confiança, que são suas melhores amigas, fazem resplandecer ainda mais a beleza que carregam consigo diariamente.
     As diversidades femininas são inúmeras, e essas são apenas algumas das infindáveis categorias que eles provavelmente nomeiam ao ver uma mulher passar, mas o fato é que não importa o nome dado a cada uma das ‘tribos’. Eles nunca estarão satisfeitos com o que oferecemos. Vai faltar algo. Se não for bunda será peito, porque o resto tanto faz – ao menos aos olhos cegos para o interior, mas demasiadamente nítidos a tudo que se reverte ao sexo – e infelizmente esses representam a maioria. E se vierem em excesso também haverá reclamações porque seus atributos altamente generosos te fazem parecer vulgar. Caso esteja tudo em dia com o físico, prepare-se para ser alvejada no comportamento e também nas idéias. Sua possível solução para o problema da violência contra a mulher, ou ainda a maneira totalmente por eles maliciada de como você cruza sensualmente as pernas – por instinto, porque mulher gosta mesmo de seduzir a todos e não só àqueles por quem os inseguros se sentem ameaçados – afinal, é difícil de aceitar pensamentos tão modernos e um comportamento totalmente oposto à marionete que sempre os obedecia. Sempre haverá aquilo que se não for motivo suficiente pra ser considerado um defeito, eles o tornarão, simplesmente porque nem os próprios sabem exatamente a que procuram e por isso empurram às belas seus dilemas. Sinto lhes informar, mas pacote completo vocês nunca terão, e de uma vez por todas queiram aceitar a dita realidade, queridos, afinal, nunca se pode exigir de alguém aquilo que nós também somos incapazes de oferecer. E é isso o que têm nos mostrado.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mais uma constatação


Eu não queria aquela vida. Pra ser sincera eu nunca quis, mas o destino tem dessas coisas de fazer a gente pagar com os próprios atos todas as atitudes que um dia apedrejamos. E eu fui só mais uma das condenadas por não saber negar o que meu corpo pede e, consequentemente, merecer o castigo dito após contrariar minhas próprias palavras. A verdade é que cedi. Tanto que, a brincadeira começou a tomar sérias proporções e eu sequer sabia o que estava acontecendo comigo. Tola. Burra. Fácil. Inconseqüente. Sobretudo, ingênua. Ingênua por aceitar ser a segunda na vida de quem viveu tudo comigo primeiro. Ingênua a ponto de pensar que a vida voltaria a ser como na noite anterior e crer fielmente que minha resistência seria a mesma de sempre. Talvez hoje até pudesse ser, pois com os relacionamentos vindouros apliquei algumas das lições que o primogênito não titubeou ao me dar. Mas, marinheira de primeira viagem que era, apanhei de todas as maneiras possíveis como quem gosta de sofrer, masoquista, e a ele dei meu gosto por tempo demais; não mais o físico, porque esse se perdeu em uma jogada admiravelmente madura e impulsiva de ambas as partes: primeiro a minha, volúvel ainda, pela incerteza do que parecia dizer com tanta firmeza, e depois a do amado que, por um flash de compaixão se impôs – não por muito tempo já que fora devastado por seus instintos masculinos. Mas o simples fato de eu estar aqui agora depondo todo esse transtorno calejado e delicioso ao qual me submeto, já é uma prova e tanto de que ele ainda me tem. Talvez não como antes, mas ao menos nas palavras e mais forte ainda nas lembranças almofadadas, perfumadas e bem alimentadas que é pra confortavelmente se manterem aqui – pro meu bem ou pro meu mal – enquanto lúcida eu estiver. Que me desculpem todos aqueles a quem incomodo com essa overdose de amor, mas será assim enquanto eu não tiver espécie alguma de prova contrária e justificativa concreta que me impeça de cultivá-lo em mim. E só mesmo a realidade de uma segunda chance me faria por em prática a consciência de tudo que já sei: somos mesmo muito diferentes, e com todas essas disparidades seria impossível um convívio no mínimo pacífico pra qualquer tipo de felicidade. Acho que é essa a conclusão mais sensata a que cheguei durante anos tão pensativos: só me liberto desse amor quando ao meu lado ele estiver; por enquanto, então, meu coração se nega a aceitar que qualquer casualidade me separe dessa droga que me viciei conscientemente, e cujos efeitos colaterais, aos poucos, se transparecem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Suspirosa


E como eu queria que, a cada vez que batesse em mim com tanta brutalidade a saudade, bem como agora ela faz, a solução fosse de imediata tomada fazendo com que a dor também partisse, logo, pra longe. Sem os nossos beijos, eu viajaria no tempo e não mais carregaria o sofrimento. Sem o seu toque, pegaria as fotos e o choro se secaria. Sem os lugares, as músicas as quais eu ouviria, faria com que tudo dissesse adeus. E dessa maneira você iria embora de mim, de pedacinho em pedacinho, mas ao menos definitivamente. E eu me teria de volta, merecedora, porque, talvez eu não mais queira te dar o luxo de escutar, saindo diretamente da minha boca, a confissão desse amor que para todos é tão óbvio.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A descoberta do verdadeiro amor: o próprio


     Drummond, em algum dia teve a audácia de dizer que “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”. Ah, que mentira! Seja lá porque foi que ele proferiu tal insanidade, prevalece aqui a minha discórdia pelo mais simples e óbvio motivo: a própria dor já é um tipo de sofrimento, consequentemente, não há como separar tais sentimentos que por toda a vida caminharam colados. Dói um dedo cortado, um braço quebrado, uma cabeça cheia de problemas, uma palavra que não deveria ter sido dita, uma atitude que não foi tomada, e na pior das hipóteses, um coração que deveria ter sido amado. E não foi. E não adianta teimar, baby; pomadas não vão refrescar o ferimento, comprimidos não vão te fazer livre das lembranças e injeções só cutucarão ainda mais o machucado pra que você se lembre porque anda sofrendo.
     Necessário mesmo é aceitar o próprio luto. Conviver com a própria dor e alimentar o sofrimento que não é demais ninguém, senão, seu – embora pareça um tanto quanto masoquista ou suicida proceder de tal maneira quando aquilo que julgam certo, seria transformar a noite na página de um livro para que, quando amanhecesse e ela fosse virada, nada mais fizesse com que a catástrofe vivida ontem, hoje voltasse. Puro engano. Mera ilusão. Precisamos mesmo é nos permitir, mergulhar e entender o que se passa dentro desse oceano ora agressivo pelos ventos que se esquecem de trazer boas vibrações, ora calmo, anestesiado pela conformidade que, dentro de nós, já se sente em casa; mesmo que pra isso, precisemos molhar por todas as noites o travesseiro que combina perfeitamente com o sal das lágrimas durante mais alguns dias ou semanas ou meses.
     Como qualquer machucado – físico ou sentimental – o remédio mais eficaz ainda é o tempo, pois só com ele a cicatrização que é imprescindível no processo dessa recomposição interior, finalmente virá. A marca fica ali, não se apaga e tem lá seus motivos pra isso. É visível nos olhos que já não brilham mais com tanta intensidade, ouvida na voz que agora não treme quando se propaga, e sentida no coração que recusa se exaltar quando se tem a presença. Chega a ser impertinente, mas com tanta insistência, nos convence e aos poucos mostra ao coração recém atropelado, a que veio. A aceitação de que tudo já não é mais tão cor de rosa quanto um dia foi, é fundamental e virá parcelada de acordo com a maturidade adquirida depois dos muitos desentendimentos consigo e com o outro. E a compreensão das desavenças, no futuro vem a ser compensadora.
     Não precisa se apavorar, porque essa sensação eterna de luto e solidão, um dia passa. Geralmente, quando você se olhar no espelho e vir quanto tempo foi perdido: o seu, enquanto se doou inteiramente a quem sequer percebeu tal boa ação, e pouco mais tarde, o dele, que quando menos esperar, se dará conta toda as vezes que a ver, de que o prejuízo foi unicamente o próprio. Aí, então, você estará apta a se levantar da rasteira tão baixa que lhe fora dada – linda, mas não loira – amando um outro alguém muito mais digno e merecedor de tantas regalias um dia oferecidas: você mesma. Verá também, que a partir daí, tudo começa a parecer mais fácil e acessível. E que seu cabelo parece mais brilhoso, sua pele mais lisa, seu sorriso menos obrigatório e mais espontâneo, e seu corpo muito mais desejável. Por quê? Não sei. Auto estima às vezes não tem explicação, fazendo o meu bem, já me basta. Assim tem sido.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Em branco


     Então é Natal. E quando menos esperarmos, ano novo também – época de se refazer interior e exteriormente. Comprar um vestido branco pra ver se dessa vez ele traz mesmo a paz que garantia, calcinha e sutiã vermelhos pra não faltar amor no ano que se aproxima, pintar as unhas, retocar as raízes, deixar em dia a depilação e a hidratação no cabelo pros dias de festas e fazer a auto-estima tocar o céu. É dia de ver como o ano passou rápido, quantas pessoas diferentes passaram pela sua vida, somar o quanto você riu a todas as vezes que chorou, analisar o resultado final e avaliar o que valeu mesmo a pena. Se houve um superávit na conta das vivências, ótimo; no que depender de você, tudo tende a ser cada vez melhor a partir do dia seguinte, mas se um sinalzinho de menos vier logo á esquerda do fim dos cálculos, há motivos pra preocupação e a primeira reação a se tomar não é uma das mais inusitadas. Promessas de novas dietas, mais dedicação nos estudos, mais academia e menos doces, preferir os ouvidos a boca, temer menos e viver mais – entretanto, sem confiar tão cedo no cara que disse ter esperado por alguém como você por toda a vida, porque ele vai te mostrar seus reais interesses assim que você ensiná-lo o caminho que desabotoa o botão da sua calça e desfaz o laço da sua blusa – e no fim, o que vai acontecer é que muito provavelmente faltaremos com todas as juras feitas na hora de ouvir o estouro dos foguetes e a contagem regressiva pro ano que vem vindo novinho em folha, branco como um sulfite, que é pra escrevermos nele o roteiro já planejado antes do dia primeiro. Nada imprevisível.
     Eu, particularmente, não gosto desses dias finais do mês em que todos parecem se amar de um jeito nunca feito antes, ser solidários e irmãos de todos. E os outros onze do calendário não contam? Digam que sou insensível, ou que não dou valor aos meus queridos, enfim, pensem o que quiserem, porque a sensação de angústia que tenho sempre que se aproxima o dia vinte e os seguintes, não vai embora assim tão fácil. As lembranças que me acompanham nessa época não são as mais saudáveis e tudo me remete àquilo que se eu pudesse escolher, viveria apenas nos meus últimos suspiros em vida: conversas decisivas e derradeiras que me fizeram sofrer ao longo do próximo ano (inteiro), sustos e acidentes inesperados em casa, provas que superavam seus índices de chatice e cansaço a cada uma que era feita, e meu ânimo pra que algo de bom acontecesse escorrendo pelo ralo. De joelhos e mãos ao céu, agradeço. Acabou!
     Agora, com um passo a mais me lanço desse precipício – substantivo que encontrei pra encarar o ano que vem chegando ao fim – e dou de cara com o incerto, porque o roteiro vivido até então se despede: a menoridade, a vida programada, as pessoas esperadas diariamente, os compromissos sabidos pela tarde, o coletivismo em meio às aulas, e provas, e recuperações, e trotes, e piadas, e discórdias, e concorrências, e ensino médio. A vida agora é outra: faculdade, trabalho, novos horários, gente desconhecida, oportunidades inéditas, possíveis amores. Recomeço de cara limpa, peito aberto decidido a encarar o que vier e alma nova pedindo aos ponteiros quando tocarem o ponto mais alto do relógio, que formem uma barreira contra tudo o que a mim foi um empecilho nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias, pois ainda que lá pra março ou abril tudo pareça ter voltado a ser como era antes, ainda não morreu em mim – e talvez em ninguém – a velha esperança de que no ano que vem as coisas serão melhores.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Vem!


     Hoje reservei minha madrugada pra ti. Tô aqui em plena sexta-feira a noite, começando às onze pra ser mais específica, teclando com os esmaltes descascados e uma dor no pé que não sei de onde veio, parecendo uma otária iludida por um cara como você. Mas antes de qualquer coisa, relaxa, porque essa ilusão já passou e faz tempo. Não vou te ligar perguntando onde você tá, nem se eu ainda vou te ver algum dia, porque agora eu sei que vou. Seu tipo eu já consigo reconhecer em qualquer outro de vinte e poucos anos que se aproxime de mim armado com meia dúzia de palavras educadas e um gosto impecável nas roupas que veste – fator que, por sinal, é meu ponto fraco. Estou alerta a essa espécie masculina que ataca e devora suas presas sem dó e de um jeito tão hipnotizante que, por mais imoral que possa ser visto por alguns, só me faz querer ser seu prato principal por mais uma, duas e quantas vezes forem preciso.
     Meu, tu é foda! E encare isso como uma qualidade das mais poderosas que um homem pode ter. Que me xinguem as feministas, mas tu é. Não tenho como negar e abaixo a cabeça, sim, pro teu jogo de sedução que ainda me faz cair de quatro, embora eu saiba exatamente como você vai tentar ganhar o pão do dia que, pela noite, será eu mesma sem ninguém que ameace seus esquemas das altas horas. Sei lá como posso tentar explicar o quão ‘fudido’ tu é, aliás, por estar em um dos mais altos patamares dessa categoria, provavelmente sabe melhor que eu da sua excelência. Ganha na marra, com um comportamento peculiar que eu prefiro nem imaginar quantas mulheres já somou em uma lista provavelmente feita alguma vez na vida (porque os homens têm necessidade da matemática nessas horas: números são mais relevantes do que intensidade – juro que ainda quero entender o motivo pra precisar de tanta diversidade). Bom pra você, e indiretamente pra mim também que sou beneficiada de acordo com as suas experiências adquiridas. E não me julguem, nem critiquem, nem repugnem, nem me abulam por eu parecer tão dependente e submissa de um corpo humano. Não o sou. Apenas jogo com as mesmas cartas que põem na minha mesa. E gosto. É algo parecido com aquilo que chamam de defesa pessoal em um tipo de luta que desconheço o nome, mas que no meu caso, têm primeiro e segundo bem conhecidos. Talvez por isso a necessidade de tantas precauções. Famoso e convidativo até pela maneira como trata uma mulher nas conversas mais cotidianas possíveis, é também perigoso e chamativo como aquelas placas que sinalizam obras nas ruas e pisos molhados, ou banners que noticiem a vacina contra um vírus perigoso – ambos com o intuito de prevenir qualquer eventualidade que possa implicar em algum acidente ou doença, graves ou não. De qualquer forma, a intenção é logo avisar os possíveis riscos para que compromissos posteriores não sejam de sua inteira (ir)responsabilidade. Se for assim, pode vir que eu já estou vacinada e meus anticorpus cumpriram seus devidos papéis; agora estou ilesa de qualquer contratempo. Então vem!
     Vem que eu quero outra vez te encontrar e dar aos nossos corpos tudo o que eles nos cobram com aquilo que só os próprios podem nos oferecer e nos satisfazer; portanto não temos escapatória, senão a união que é tão bela entre um homem e uma mulher – sem pudores, nem estranhamentos, nem qualquer tipo de receio. Vem que eu quero o que em você é nativo, e em mim é invejado por acompanharem-te a todos os lugares em que seus pés tão bonitinhos pisam, e suas pernas que parecem ter sido esculpidas por algum ser apaixonado que me fizesse apaixonada por elas também, caminhem, e seus dedos e suas mãos que me pegam com tanta firmeza antes de me deixarem toda mole, apalpe. Vem que eu quero também poder ver suas expressões nesse rosto tão lindo onde as combinações gênicas não falharam em um único detalhe sequer; de alegria, de preocupação, de prazer, de sono, de quem foi dominado pelo álcool ou por algum entorpecente que te fizesse sair de si por alguns minutos. Vem que eu quero sentir seus cheiros naturais, da sua pele mesmo, sem camuflá-los por trás de perfumes comercializados por pura vaidade. Do suor no fim do dia, do hálito provindo da cerveja e do cigarro que passaram pela sua boca, do cabelo que quando você acorda fica todo bagunçado e ainda não foram vítimas dos xampus, géis e sprays que burlam o aroma que é característica sua. Vem que eu quero sentir suas secreções pela minha pele, sua saliva umedecendo meu corpo já molhado pelo seu toque onde sou sensível, junto de qualquer sinal que seu corpo expila e me mostre o prazer que você sente naquela hora. Vem que eu quero sentir o gosto de você por inteiro. Teu sal, teu insosso, teu amargo, quero saber o sabor do teu veneno que me anestesia. Vem que eu quero protestar contra todos aqueles que não admitem a atração pelo íntimo do outro e rotulam como algo nojento, ou sujo, ou proibido essa vontade tão natural de quem quer se infiltrar de todas as maneiras cabíveis no corpo que te faz companhia nos melhores momentos da vida. Porque eles mentem e enganam o próprio querer: do tato, do contato, da sensibilidade de tocar e ser tocado, corrompidos por uma sociedade preconceituosa e antiquada de mentes pequenas que, ainda no século vinte e um, tentam maquiar uma realidade que é bela por si só – nua. Vem, porque não existe sujeira onde a química reina mesmo que pela carne, e porque se nada do que digo fosse tão instintivo e natural o quanto de fato é, a humanidade não existiria. Então, vem que a gente mostra a todos eles que pecado é deixar de viver os melhores presentes que podemos proporcionar uns aos outros, a quem desejamos com tanta intensidade, por toda a vida e quantas vezes quisermos. Vem!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O processo do desamor

Capítulo I: A nostalgia e a certeza do meu amor.


     É que eu tenho vivido bastante tempo contigo por esses dias, sabe. Daí essa disposição para escrever o que me consome nesse exato momento: você. Não, ainda não tô louca e sei que nessas horas você deve tá aí, bem de frente a TV assistindo algum tipo de luta que te remeta aos seus tempos de também lutador, ou ainda encarando a tela do computador ouvindo alguma daquelas músicas que o seu gosto um tanto quanto peculiar repelia os que estavam em volta, porque as batidas escolhidas chegavam a ser irritantes. Enquanto isso eu fico daqui, a uma distância consideravelmente grande da sua casa que não conheci além do portão de entrada, e idem você o da minha. E comigo a chuva mais uma vez, aliás, é engraçado como ela insiste em chegar sempre que te sinto aqui, bem do meu lado. Algo a atrai e eu até gosto. Melancolia às vezes é bom. Tenho me sentido tão sozinha que ela provavelmente veio para ser minha melhor companhia em um fim de semana tão estagnado quanto anda a minha vida ultimamente. Assim tenho tempo para pensar e deixar que as lágrimas imitem o movimento das gotas lá fora e escorram sobre minha pele enquanto releio nosso passado que hoje é póstumo ao menos para ti. E é exatamente assim, por meio dessas letrinhas canhotas e redondas que sempre aparecem no papel quando você aflora em mim, que eu comprovo que te amo: passando meus olhos chorosos pelos relatos do meu pretérito perfeito que, escrito, testemunha meus últimos anos de devoção a você. E olha que eu nunca disse a ninguém um sentimento com tamanha propriedade: amor. Demorei a aceitar e às vezes ainda não sei compreendê-lo, mas tá aqui dentro e não duvido que ele tenha mesmo o nome que o dei, só não sei como descrever. Vai ver que é o tal do feeling: acontece, a gente sente, tem certeza e dispensa as demais provas – sentimentais ou científicas.


Capítulo II: A dependência e o sofrimento solitário.


     Eu tinha você como necessidade; e era de tanta coisa que me custou processar o que se passava nesse coração que foi tantas vezes atropelado pela loucura que é sentir amor. Primeiramente, quando minha razão ainda representava em mim alguma porcentagem considerável, era necessário esquecer – os cafés da manhã num horário de quase almoço, os risos porque algum amigo fizera graça, as tardes enjaulados dentro de casa porque a chuva não dava trégua – e por um ponto final no capítulo mais próximo desse romance nada romântico. Acabar de vez com o sofrimento. Em seguida, a necessidade era da carne, do tato, não importam as condições em que viessem. Depois necessitei absurdamente da sua palavra, sua resposta para o meu ‘boa noite’ que eu te dava com tanto afeto, e recebia de volta tão frígido, e também de um pouco mais de sensibilidade no seu olhar que tentava fugir do meu sempre que nos cruzávamos. Necessitei também da distância para me reencontrar e te organizar em mim antes que você me tomasse por inteiro. Cheguei tarde. Tão atrasada que já não me era possível fazer mais nada senão necessitar de apenas uma coisa a mais: compreender; que você estava feliz, que o nosso tempo não era esse, que eu deveria ao menos tentar ficar em paz mesmo que devagar e sem metade de mim, porque essa parte está(va) em suas mãos.


Capítulo III: A percepção da liberdade após o final infeliz.


     Mas acho que mudei. É, eu sei que deve ser difícil de acreditar e às vezes eu nem demonstre tal fato, mas confie: é verdade. Ao menos tenho tentado, eu juro. Não que meu amor tenha emagrecido, perdido medidas antes incalculáveis. Acho que ainda é cedo pra tanta radicalização, mas são minhas auto-consultas analíticas que têm surtido um efeito bem mais positivo do que as minhas expectativas. Amém. Minha cama é meu divã, e os fones nos ouvidos, o psicólogo. Sem mais nenhum artefato, dou início à sessão e chego a conclusões antes invisíveis, tamanha cegueira que me conduzia. E tem dado certo. Tanto que indico o medicamento receitado pela auto-análise. Apenas deixe-se, permita-se. Os dias virão e as novas pessoas também, ainda que a princípio seja somente pra cobrir um pouco do buraco que ficou vago no coração devido á partida alheia. Viver ao invés de esperar todos os dias por uma mensagem sua na minha caixa de e-mail, no celular, ou na internet, é a única solução pra fazer com que os meus dias passem menos arrastados e muito mais interessantes. Penso em mim, no que me faz bem da maneira que for. Vou à academia cuidar do corpo que é meu antes de mais ninguém, experimento roupas novas, faço as unhas, testo maquiagens inéditas, saio com as minhas amigas pra respirar e tentar encontrar uma saída desse túnel, o qual parece não ter luz no fim, converso sobre o que me propõem, e acima de tudo, escrevo. Sobre como estou, sobre minhas mudanças repentinas de idéia, humor e sentimentos, que inclusive, agora só me fazem pensar que quem perdeu, meu bem, não fui eu!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Agridoce


     Ficas tão bem de cinza. Já me acostumei a ver-te na cor que pareces tanto gostar, mas prefiro quando tiro a malha do teu peito e colo ele junto ao meu que tu também preferes nu. E eu não faço questão de relutar. Deixo que me mostre toda a habilidade em desabotoar o sutiã meia taça que visto e fico apenas a admirar tua vontade em tão logo me ter em ti – sem conversas, ensaios ou pseudo demonstrações sentimentais que bem sabemos inexistentes. Nossa conexão é completa. Da altura, dos beijos, do propósito. De qualquer forma, apenas nos encaixamos – em únicos, duplos ou triplos sentidos. E é bom assim. Prazeroso e engrandecedor pras minhas próprias experiências com o sexo (oposto). E te gosto, e te quero, e te desejo, e te imploro com meus olhos brilhosos e fixos ao teu olhar castanho claro, esmagador dos meus flertes pelo auxílio das sobrancelhas delineadas que desarmam meu menor sinal de timidez ameaçador em se exaltar. Assim me dominas. Estou inerte. Sou submissa. Apenas sigo teus comandos. E se rebato é pra que sintas também a minha vontade de te ter, e te beijar, e te apertar, e te morder, e te arranhar, e te lamber, e tu gozar, e eu te soltar, e me conter, e tu adormecer.
     Tu ficaste ali. Parado e imóvel a alguns poucos centímetros distante de mim, desmaiado num sono dos mais profundos que já vi até hoje. Não se incomodava nem mesmo com a falta do travesseiro que certamente poderia dar-te um pouco mais de conforto depois das horas trabalhadas. Se virava como podia por entre o edredom branco enrolado pelo corpo e, deitado de lado, dormia como um anjo. E que vontade de abraçar, de acolher em meus braços todos os pedaços teus que coubessem em mim. Encaixar tuas costas lisas nos meus seios que acabavam de ser só teus, usar minhas mãos e minhas unhas compridas que tocaram todos os pontos da tua pele só pra acariciar-te e fazê-las viajarem por teus braços cicatrizados, sentindo ao mesmo tempo os teus músculos que por ali são tão palpáveis. Passar meus lábios sedentos pela tua temperatura que a mim é tão necessária, por entre os espaços mais escondidos e íntimos de ti, e minha língua pela tua orelha, pelas tuas coxas, por teu peito, tua barriga; sentir todo o teu gosto e deixar-te arrepiado com um desejo imenso de me fazer sentir prazer outra vez. Bagunçar um pouquinho da tua louridão ainda embutida na pele inteira bronzeada, através da minha força em puxar os teus pelos dourados e acompanhar meus olhos vidrados em ti até a outra extremidade do teu corpo maravilhoso, babando por uma pintinha tão delicada na lateral interior do pé esquerdo. Mas preferi ficar parada, tão estátua quanto a ti que só movimentava, a cada nova inspiração, os pulmões talvez até um pouco gastos pelo cigarro. Zelei teu dormir e, quieta, fiz uma retrospectiva de tudo o que fui sorteada a viver.
     Teu cheiro másculo depois de um banho que me fizera derreter em satisfação aromatizava o quarto e insaciava agora os meus pulmões que, nas respirações cada vez mais profundas, tentavam se expandir pra qualquer canto possível querendo que tu coubesses inteiro dentro de mim. Senti. Por dois ou três minutos, senti o perfume do teu corpo pregado no meu. Senti por uma noite o maior prazer que já me deste. Senti-me capaz de dar-te prazer e te fazer gozar da vida e na vida. Senti-me crescida, madura pela convivência contigo. Senti vontade de ir embora. E fui. Por hora sem querer voltar, porque ali estava tudo errado apesar da tua dedicação de sempre em ser perfeito. Tu não fora nem de longe o homem do qual eu precisava, ainda mais sabendo do suposto ‘perigo’ que poderia encontrar no meio do teu trajeto de me levar até o quarto – embora essas preliminares de mera apresentação jamais tenham sido parte do nosso roteiro habitualmente carnal. E talvez por isso é que teve tanta pressa de mim. Insegurança. Seria? Cogitei. Sobretudo, naquele momento era a minha necessidade: ter motivos pra ficar e não querer sair correndo repentinamente atrás da voz que eu, aflita e presa entre quatro desconhecidas paredes, podia escutar com tanta nitidez do outro lado da janela branca. Chorei. Saí e te quis fora do meu corpo, da minha cabeça e de qualquer resquício meu quando dali eu partisse. Falhei. Venceste. Viajaste comigo por toda a estrada de volta à vida rotineira em cada flash rememorado com afinco. Na verdade ainda estás aqui, porque adocico cada partícula da nossa fusão sempre surpresa. Não te odeio nem mesmo se motivos para isso eu tivesse, e talvez tenha, mas não. No que depender de mim, tua paz e teu bem serão por todos os dias teus fiéis escudeiros e te protegerão das insanidades que às vezes cometes sabe-se lá o porquê. De tudo que me possa ser oferecido, só quero o de sempre: a maneira como me conheces e bem sabes administrar. Sem mais açúcar nos dizeres ou limão nos afazeres. Agridoce. Assim os dois opostos são bem mais atraentes. E nós dois também.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Meu decreto ao desapego


     Só vim pra avisar que não é por inteiro – ainda – mas acho que estou te dizendo adeus. Comemore. Solte foguetes. Dê uma festa, porque daqui eu pretendo fazer o mesmo. E não se preocupe; já me dei o trabalho de organizar tudo o que a mim é necessário: dei fim no seu álbum que fui fazendo a cada nova foto vista, não suo frio mais quando você chega, nem fico com a boca seca quando me cumprimenta, não sinto mais o coração pular quando te vejo depois de semanas de abstinência, e já nem tenho mais tanta convicção sobre aquilo que chegou a ser absoluto.
     Sei lá o que é que aconteceu, mas perdi. Primeiro você, depois o encanto que me fez louca por ti durante esse tempo todo. Meu cansaço por ter trabalhado tanto em vão, talvez seja uma justificativa no mínimo plausível para a ocasião. E que os anjos, e os deuses, e os astros em coro digam amém. E que o universo conspire a favor, e que os ventos soprem pra essa nova direção cada vez com mais velocidade, e que nada me traga a vontade de voltar.
     O amor fica, mas se transforma. O desejo de ser fiel, amar-te e respeitar-te na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, por todos os dias das nossas vidas, agora vem a ser apenas recordação: do meu primeiro toque, do meu primeiro gosto, da minha primeira sensação de tesão, e sobretudo, do meu primeiro amor. Ficam também suas lições que na marra tive de tentar decifrar e aprender. Parabenizo-te pela complexidade que comporta.
     Assino embaixo do teu acordo que já fora tantas vezes a mim proposto e desacorrento-me de ti. Tento. Com fé e vontade. No fim das contas acho que saquei que a gente não combina mesmo, sabe. É visível que não concordo com seus vários momentos grosseiros e nem você com os meus muitos liberais. Deixa como está, que assim não volta. E que prevaleçam as coisas boas que realmente valeram a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Na memória do coração


     Você agora é um problema meu. Não mais nosso, porque isso que vivo só, já não cabe a mais ninguém. Talvez nem a você mesmo. Evito falar de ti até para as minhas amigas, porque sei que essas dores de amor são os assuntos mais insuportáveis de se ouvir, e elas não merecem viver comigo esse martírio que inventei. Você só existe pra mim. Quando eu tô sozinha no meu quarto e uma foto de nós dois no meu mural se reflete no espelho pregado na parede. E também quando tocam nos rádios ou no meu celular todas aquelas músicas que nos acordavam às duas da tarde. Ás vezes até torço pra não te encontrar nos lugares onde isso é fácil de acontecer, porque o modo como nos trataríamos, seria ainda mais doloroso para ser presenciado outra vez. Estranho, né? Só não mais do que nós hoje em dia. Por isso prefiro ainda filtrar em mim apenas o que foi positivo e não desacreditar da sua beleza física e mental. Espero que não, mas já pensei estar platonizando essa história, tamanho vício que sustento. Todavia, se for isso mesmo o que acontece, eu o faço de maneira extremamente carinhosa e paciente. Um dia a gente se encontra por aí e tira a prova do que será, ou não. Você sem nada que te prenda ou te ponha em dúvida quanto a nossa suposta caminhada, mas dessa vez, juntos, e eu como sempre estive: a sua disposição. Acho que tudo conspira mesmo é para isso, que nos esperemos e tenhamos em mãos a maturidade que já nos fora escapada. Esperar, por mais angustiante que seja, também é bom. Faz nascer na alma a consciência e, mais uma vez, o amadurecimento de tudo que existiu de maneira errada por ter sido impensada, e nos traz de volta a chance de reconstruir de um jeito mais adulto e sensato o que ainda pode ser. Eu, que sou viciada no filme que vive uma história de amor interrompida por um naufrágio, concordo plenamente com a frase final que a protagonista sobrevivente deixa sobre seu amado: “He exists now only in my memory.” E não se preocupe, aqui você estará salvo, sempre!

O que os olhos não veem, a imaginação envenena


     Gosto de beber cerveja e não faço mudas as minhas gargalhadas; muito pelo contrário, deixo que elas saiam livremente pela minha boca e mostrem a todos a alegria que me domina, mesmo que essa seja apenas do momento. Adoro delineador nos olhos e mais ainda um batom vermelho vivo nos lábios, mas sei que os acessórios não combinam na mesma ocasião. Tenho as pernas grossas e gosto delas assim, por isso não é difícil me verem usando um short jeans, ou uma saia acima do joelho. Se o assunto é salto alto, também estou por dentro. Não os recuso mesmo quando meus pés estilhaçados pelo número quinze tentam me obrigar a descer. Prefiro preto a branco e vermelho a rosa – e isso minhas unhas quando pintadas podem mostrar. E já quiseram uma resposta direta e certa acerca do sutiã que visto. Ignoro. E sabe qual é o problema em não ligar por uma fração de segundos sequer para aquilo que as outras bocas dizem de maneira quase sempre pejorativa todas as vezes que se deparam com alguma dessas preferências que a mim são peculiares? Eles – que no plural também se refere a elas – se confundem. Pareço até um catálogo do qual você pode escolher a dedo o suposto erro que mais, ou melhor, que menos lhe agradar e a partir daí apertar com o maior gosto e a força de mais alta potência que lhes couberem, o botão cuja função é apedrejar.
     Se bebo, sou vulgar. Se meu batom é vermelho, sou puta. Se o short estiver um palmo acima do joelho, sou piriguete. Se rio em alto e bom tom, sou exagerada. Estou mesmo por trás de todas as peças que descrevi e assino embaixo quanto a minha ciência em usá-las, bem como o vocabulário que exponho, as músicas as quais ouço, as idéias que defendo e as pessoas com quem ando. Porém, quem vê apenas um metro e sessenta de altura, cabelos longos, peitos e pernas, desconhece um mar de tantas outras virtudes. Jamais quis ser eleita a menina pra casar, até porque tal demonstração de compromisso nunca foi meu sonho de consumo. Falo gírias que geralmente são usadas com maior freqüência pelos homens e às vezes até ajo como um. Não faço cerimônias para sentar no chão, e nem mesmo pra xingar se meu humor por hora exige, e também converso abertamente sobre drogas e sexo. Acho que até o momento nenhum homem se candidataria, certo?! Provavelmente. E os motivos, alguém pode me dar? Não, não precisa; são mais do que óbvios. Eu simplesmente não seria a preferida dos raros que hoje se dispõem a colocar uma aliança na mão esquerda antes dos trinta e cinco, por acreditar que não saberia me colocar em um segundo plano na vida do talvez (sim, a crença na fidelidade do outro é apenas uma possibilidade já que o caminho do anelar esquerdo ao bolso da calça jeans não é nada distante) recém-encoleirado, porque antes viriam os domingos de futebol: o amador no campinho da cidade e o profissional na televisão. Também preferiria estar em um salão de beleza cuidando do que é meu ao invés de ganhar como nova profissão o cargo de secretéria-por-vinte-e-quatro-horas-do-marido, sempre pronta pra cozinhar o prato que mais lhe agrada, lavar, passar e engomar as roupas como ele prefere e não me esquecer de deixar separada do lado de fora do armário a camisa que no dia seguinte ele usaria. “E as crianças?” Desculpa, mas acho que perdi alguma parte do raciocínio porque não me lembro delas. Espero não ser castigada, mas tá aí um objetivo que vive completamente fora dos meus até o momento: filhos. Dão trabalho, sim, e pensando bem, já existem tantos que sofrem nesse mundo, pra que então colaborar com tal calamidade? Não que eu poria em vida um descendente meu em genes e semelhanças para sofrer, mas a vida por si só cumpriria com o que eu como mãe tentaria ao máximo evitar. Melhor então pensar em outras coisas. Um casamento provisório, quem sabe. Há tantos que hoje utilizam tal contrato, e fazem com que as dores de cabeça sejam consideravelmente reduzidas. A gente segue como tudo manda: trocamos os anéis que juram ser fiéis, amar e respeitar um ao outro por toda a vida e assinamos os papéis, e quando o prazo de validade se esgotasse, veríamos o que deveria ser feito: prosseguir ou interferir. É uma proposta tentadora, um caso a se pensar.
     Sei bem que meu pensamento um tanto quanto moderno possa interferir na imagem que passo. Desinteressada pra uns, desvalorizada pra outros, desleixada pra todos. Não digo fisicamente, porque sei bem e gosto de me cuidar com todas as feminilidades que tenho direito, mas talvez o que julgam pode ser moral e eu agora tenho que pagar por algum erro cometido no passado. O preço cobrado é às vezes elevado, mas não reclamo porque sei que deve ser necessário. Só penso que aqueles que desconhecem o que está por dentro daquilo que só é visto de fora, devem se auto-regular e no mínimo ter a razão do que pregam com tanta convicção. Provem-me que não valho a pena e eu, então, me calo.
     Não venho diante dessa espécie de desabafo, promover minhas boas qualidades a qualquer um que esteja de bobeira por aí. Mas é que esse papo de ouvir de outros o que talvez já fora distorcido por inteiro, principalmente quando o assunto me diz respeito, cansa, sabe, e tira precocemente da gente a credibilidade que deveria a mim ser creditada, porque sou mais do que as noites alcoólicas, a maquiagem borrada e a companhia de alguém por uma só vez. E quem não é, ou nunca foi? Não conheço, pois por mais visão de futuro, moral e bons costumes que qualquer pessoa tenha, são imprescindíveis os momentos de fuga: da sociedade e das mesquinharias que ela nos impõe, e dos pensamentos curtos dos outros que por falta de preocupação com o próprio viver, atenta-se ao do próximo que anda em paz com as próprias condutas.
     Basta apenas ter a mente independente o suficiente a ponto de ser dono dos próprios desejos. Bebo quando quero, visto o que gosto, amo ao meu modo, e isso eu sei bem fazer. Despreocupem-se então, se me virem andando pelas ruas próxima a uma ponte: não vou pular; nem mesmo para o seu (des)prazer. E fiquem tranqüilos, pois as conseqüências que mais tarde me serão atribuídas por tudo que vivo, já têm minha total consciência, dispenso as recomendações onde as malícias transbordam, pois sei bem o que de melhor devo fazer por mim e para mim. Obrigada!

domingo, 6 de novembro de 2011

O tal do primeiro amor


     Quem é esse que tem nome, sobrenome e um histórico de crimes assustadores na vida da sua vítima mais freqüente? Se souberem, por favor, me dêem o endereço completo de onde ele reside, porque a penalidade atribuída ao infrator não será simbólica. Caso tivéssemos em mãos o poder de conter as loucuras desse ser com identidade, muita dor de cabeça poderia ter sido poupada a todos, que – ironicamente –são reféns de um fugitivo, e apenas mais um dos que já provaram o sabor que pode ser considerado no mínimo estranho para quem era virgem de tal sentimento. É estranho, porque contesta tantos postulados antigamente defendidos por unhas e dentes até que o ousado da vez chegasse. Não sei quanto aos demais, mas a mim isso incomoda, e muito, pois foi dessa maneira que me vi gradativamente perdida na pior das hipóteses de mim mesma, e dei a ele a grande parcela que abdiquei dos meus princípios em troca de quase nada. E foi irreversível.
     Com a convivência, só ou não, é chegado um ponto em que já não é preciso contratar detetives e nem clamar por advogados, policiais ou qualquer uma das forças superiores para que seja desvendada a situação. Deixe-se apenas sentir e verá que aquilo é novo, único e inesquecível apesar dos ferimentos que o invasor possa ter deixado como pista de sua passagem. E que podem se passar os anos, as gerações, e outros de afeto similar – mas nunca igual – ao pioneiro, porque ainda assim ele resistirá às fotos batidas prestes a se decompor, às cartas de papel gasto por tantas vezes serem lidas e molhadas devido á companhia das lágrimas e aos aromas que não se perderam nem com a distância do tempo, porque a memória resgata cada partícula do que foi vivido. E então, pela primeira vez você reconhecerá o mais novo habitante do seu mundo paralelo a esse tão mal organizado em que vivemos. Em uma oração simples, a qual deveria te livrar de todo o mal, amém, o sujeito composto por mil e um caprichos anuncia assim como quem não quer nada além de você por inteira: “Prazer, sou seu primeiro amor!”
     Já adianto àqueles que, assim como eu, são passageiros de primeira viagem dessa aventura: ele é complicado. Tem suas próprias vontades e bate firme o pé no que deseja mesmo quando a razão, que deveria ser superior a todas as insanidades que o primogênito comete, impõe suas ordens. E ele te fará quebrar a cara também; não há do que duvidar. Além de te fazer masoquista, pois ainda que seja nítido o seu sofrimento e o choro, não deixará que você perceba em outro par de olhos a solução para o encontro solitário de todas as noites com a cama, que não tem outros pés com ou sem meias para brincar enquanto o sono não vem.
     Mas também vem para o bem, e junto das trágicas noites mal dormidas e muito bem choradas, te ensinará a crescer. Por dentro, a inocência que exterminou sem dó o que era pura integridade, se transforma e faz nascer uma outra mente, que dessa vez vem multiplicadamente paciente.
     Dos benefícios, o maior: saber que ele existe. Ainda que turbulento e de difícil encontro (definitivo) com a realidade, é bom poder acreditar que alguém conseguiu despertar num coração que acabou sendo corrompido por pura revolta e falta de compromisso – consigo e com o outro –, aquilo que até hoje é o que de mais bonito conheci. E quando os dois derem de topa por aí na esquina de casa ou num bar da cidade, o desbravador que conseguiu nela a proeza do amor, merecerá ser homenageado com Oscars, foguetes e medalhas áureas e maciças. E ela, com beijos na testa, abraços de despedida, cócegas na barriga e, enfim, a retribuição da primeira e até hoje única plenitude que nunca lhe foi sem sentido e em hipótese alguma, desacreditada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Escrevo, logo existo


     Se pensar é logo existir, quase faço as de Descartes minhas próprias palavras. Ao trocar o verbo, me reflito em um pensamento parecido com o do filósofo, pois quando escrevo é que existo. Não sei ao certo o dia em que nasceu em mim essa necessidade absurda de ter que colocar num papel todos os meus pensamentos às vezes tão transitórios, talvez de difícil compreensão e raramente constantes. Provavelmente há uns cinco ou seis anos, e o motivo era comum: paixonites nada mais do que platônicas. Mas de qualquer forma, só sei que preciso. Tomei gosto pela coisa e sempre que vejo o desespero, a melancolia, a felicidade ou qualquer outro sentimento dar sinal de vida nesse corpo que carrego, é frente às linhas ou ao teclado que me refugio confortavelmente.
     Antes de tudo, para mim. É este o destinatário final e primordial de todos os escritos. Estou á frente de qualquer alvo que pareço desejar atingir todas as vezes que transponho em palavras aquilo que minha garganta falha ao tentar dizer e minha boca teme balbuciar. Sou um tanto quanto problemática quando o dever é por para fora tudo o que se pensa e sente, a fim de solucionar possíveis desentendimentos. Não sai, e tentativas não me faltaram para chegar a tal conclusão. Embaraço-me nas ideias tumultuadas dentro da cabeça e acabo por piorar ainda mais a situação que às vezes chega a ser de estado de alerta, tamanha a necessidade do esclarecimento. Por isso, àqueles que já foram transcritos por mim, peço que não se sintam invadidos, porque, embora a suposta exposição possa ser sua, a necessidade é inteiramente minha.
     Vejo que esse texto está mais para uma justificativa das palavras que compartilho, porque há quem tenha uma imagem pejorativa do que coloco aqui, e faz-se valer de comentários infames quando – sei lá porque, já que não gostam daquilo que se deparam – dão o ar da graça ao blog. Tem quem zombe, quem ignore, quem critique sem meros fundamentos e pense que tenho a prepotência suficiente para querer ser a nova Clarice Lispector, já que também escrevo de maneira introspectiva como bem fazia a poetisa. Digo a esses que não! Que nunca tive como objetivo alfinetar alguém enquanto deponho minha vida e menos ainda em me fazer sentir digna de receber a dó de quem me lê. Se hoje prevaleço diante dos fatos que vejo relevantes e merecedores de narrações, é porque sei que os escolhidos para meus relatos terão do outro lado alguém que os acolha, pois enquanto alguns menosprezam, outros elogiam e fazem com que assim eu me sinta ainda mais motivada a continuar: pelo meu próprio bem.