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sábado, 21 de julho de 2012

O amor (entre suas infinitas vertentes)


Amor, amor. É mesmo surpreendente tamanha certeza do que se sente sem nenhuma explicação que comprove esse habitante fixo dos corações. Sabe-se de sua presença apenas pela grandeza de amar. Sem auxílios nem motivos. Razões inexistem. Ah, o amor... quando vem, nega passagem pra qualquer outro flerte que não seja aquele único que aquece de tal maneira que chega a corar as bochechas dos mais acanhados. E quando vem, é exibido sem resquícios de moderação no sorriso largo estampado na cara dos apaixonados. E quando vem, não esconde os poros e pelos de todo o corpo ouriçados pelo toque do outro na pele dos mais ousados. E quando vem, fere mais do que chamas vívidas o peito de quem sofre por não ter por perto o abraço que poderia poupá-lo de tanta dor. E quando vem, vira de cabeça pra baixo o mundo dos intensos que se entregam de todas as formas que conseguem a esse sentimento que transforma a vida. E que não pergunta. Não pede licença. Se auto afirma e que se cuidem aqueles que resolvem afrontá-lo. Estes compram não só uma briga, mas uma guerra inteira com a maior inimiga de toda permissividade que defende o amor: a explicação. E repito que não há porquês dentro da loucura de amar. Ele existe e independe do corpo escultural, da voz sedutora, do beijo que faz desaparecer o fôlego, das palavras bonitas, dos poemas românticos, das declarações públicas de afeto e do sexo que queima as calorias que uma hora de esteira não seria capaz. Estas são só consequências. Quem procura as raízes desse sentimento, o faz em vão. É que nunca se sabe exatamente quando foi que ele nasceu. Se foi logo no primeiro beijo ou depois de uma discussão que tinha tudo pra ser irreversível. É um processo contínuo, dormente, que se arma inteiro até estar resistente o suficiente para dar o bote. E só ai, então, é que se dá conta de que ele vive. Quando já está ali. Plantado. Maduro. Trancafiado entre as artérias e pulsando no ritmo das batidas vitais. E ninguém consegue movê-lo. É sedentário no peito nômade de quem o teme e por isso foge. Mas o amor é paciente. Enxerga além de tudo que o afasta de seu verdadeiro lar e espera. Espera o tempo com o tempo e pelo tempo – a bússola sem direção dessa viagem. Espera o tempo passar, espera o tempo chegar. Espera com uma paciência incompreensível de quem já não mais se afeta pela demora. É a desesperança alimentada pela própria esperança. É a crença naquilo que já perdeu todos os indícios de credibilidade. Mas ainda assim é crível. Por quê? Porque é amor. E amor não se explica, apenas se sente. Sente-se e espere que ele virá. Doce como chocolate quente em dias chuvosos de carência e sentimento aflorado. Inconseqüente, metendo os pés pelas mãos em cada tentativa de acertar. Azedo, contaminado pela pressão incessante de um mundo capitalista. Voraz, com pressa de viver uma história intensa em meio a tantos corações descartáveis – corra, antes que este também se vá pela lixeira detrás da porta! Complicado, recheado de obstáculos-testes que ponham á prova o sentimento alheio. Ardente. Ciumento. Doentio. Dependente. Livre. A maneira não importa; ele virá. E quando isso acontecer, evite os diagnósticos. O amor é subjetivo demais pra ser metodizado, por isso, não defina nem limite a expressão mais bela de todo ser que é vivo e ama. Alie-se por mais uma vez ao tempo, pois ele sim é o único capaz de destrinchar e acalmar todas as turbulências que o amor provoca. E por fim, compreenda. Já disse Fernando Pessoa que “tudo o que chega, chega sempre por alguma razão.” Ninguém melhor do que esse sentimento louco e revolucionário para oferecer a cada coração o instigante desafio de tentar desvendá-lo enquanto em vida estivermos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ao eterno estranhamento entre os dois sexos


     A que mulher, afinal, buscam os homens? Me deparo frequentemente com episódios nauseantes acerca dos pré requisitos que hoje em dia os machos julgam indispensáveis naquelas que cogitam ser suas damas. E pra ser sincera os incompreendo. Não sei o que toma conta da cabeça masculina e a faz ser tão primitiva por diversas vezes ainda no terceiro milênio. Primitivismo esse que dá raiva. E muita. Contra argumento do tipo “mas eu posso porque sou homem” ou “isso não é coisa que mulher se faz” é decisivo pra minha birra, e na raiva, a vontade que prevalece é a oposta do que desejam os marmanjos embora esta seja unicamente pra contrariar, fazer pirraça mesmo, e mostrá-los que não somos assim tão dependentes de suas aprovações e de seus pacotes quase sempre incompletos.
     Talvez a independência que nós, mulheres, viemos construindo por séculos é uma das pulguinhas que tanto comicha o ego absolutista dos dotados de testosterona. Em um passado significativamente distante, estávamos á mercê de quase todas as suas vontades. Pra sair, usar certa roupa, dirigir, entre outros atos que a sociedade nos escondia. Passado. Mas não caiu ainda em suas mentes – nos casos mais graves, retrógradas – a idéia de que tal regime, atualmente apenas psicológico, perdeu seu trono há tempos, e que a mesma palavra agora só designa no universo feminino um bem que fazemos em prol do nosso corpo e vaidade quando pensamos ser necessário. Pois é, darlings, deu pane no sistema, ou melhor, naquilo que vocês projetaram com tantas tentativas perfeccionistas: nós. Fugimos da receita, perdemos a forma pra desenhar a nossa própria, a nosso gosto e moderação, a qual vem sendo diminuída a cada dia com maior intensidade porque a vontade de se satisfazer é preferência entre nós, e por isso independe dos rótulos atribuídos devido ás ditaduras e pensamentos machistas, queiram vocês ou não, estamos na pista.
     Não dá pra negar que estamos, sim, sujeitas a mediocridade implantada na cabeça e nas atitudes de alguns que esteriotipam dada mulher pelo que de primeiro conseguem nela avistar. Tanto que algumas ainda têm coragem de condizer com seus enamorados quando e onde os hormônios loucos do rapaz dela precisarem. No cardápio temos como exemplo a bonequinha. Essa é a menina recatada, delicadinha, meiguinha, magrinha, pequenininha, educadinha, e vem com ela o bônus de todos os -inhas que o dicionário oferecer. Ela é do tipo que falta do encontro marcado há dias com as amigas pra dar espaço ao rapaz mimado que não aceita jantar outra coisa senão aquilo que só a única sabe fazer. Esquece-se de si mesma pra agradar ao outro. É indicada àqueles que costumam mal dizer de todas as moçoilas da cidade porque sabem que têm em casa o seu enfeite pra estante da sala, o troféu a ser exibido aos amigos trogloditas: a impecável que nunca os decepcionam, e o preço a se pagar, meus caros, é que elas também nunca vão surpreendê-los – nem para o mal, menos ainda para o bem. Conformem-se. E vocês, mocinhas, serão mesmo por toda a vida apenas o bichinho de estimação do seu talvez amor, porque ao pisar na rua, ele olhará sim pra todas as bundas que em sua frente passarem e as desejará com a mesma fome de quem está há meses de jejum. Cabe a vocês tomarem partido da situação e se posicionarem de acordo com o que se fazem valer: uma mulher ou uma estatueta?
     Em contrapartida aos bibelôs estão as famosas periguetes. Estas não deixam que seus machos as exponham porque elas fazem isso por si só. E da pior maneira possível: a mais vulgar que conseguem ser. Seja exibindo a (pouca) roupa que vestem, ou pelo jeito exagerado como mascam um chiclete e trocam algumas palavras com os homens – porque os prováveis assuntos são incapazes de fazer fluir uma boa conversa; falta conteúdo –. Isso basta pra que seja percebido logo de cara a que vieram: não conseguem estar perto sem tocar, falar sem gritar, e seduzir sem escancaradamente incitar. Em suma, interesseiras, são uma boa escolha aos one night stand já que seus intuitos não são assim tão distintos dos deles. Talvez essas até mereçam o título que carregam porque não sabem no mínimo se colocar em seus papéis de mulheres ao invés de objeto. Ônus da espécie: homens, esqueçam as várias boas oportunidades que poderiam surgir com moças que valem mesmo a pena quando resolverem passar as mãos pelos pêlos oxigenados das pernas da dita cuja. Vocês acabaram de perder muitos pontos, valiosos por sinal, com as promissoras.
     E pra finalizar destaco as bem resolvidas, donas da minha plena admiração. São aquelas que xingam e riem sem se preocupar com a opinião alheia. Valorizam o corpo que têm e não se vendem por um carro importado ou um restaurante caríssimo. Não se negam. São prioridades de si próprias. E se a vontade for de transar num primeiro encontro, que assim seja. Elas sabem que nenhuma das atitudes tomadas põe em questão seu caráter, tampouco sua personalidade porque quem de fato as conhece, sabe também que passar vontade é uma sensação que nunca esteve presente em seus dias – desde que a tentação da vez não as permita que se desfaçam dos valores que conduzem. Quanto aos outros, eles são só os outros e não somam em nada na primeira suposta má impressão que podem cultivar em seus pensamentos limitados; tais quais aqueles que a sociedade, com tanta firmeza, impõe acerca das donzelas. Estas são destinadas apenas aos ousados, livres, desbravadores e independentes, porque assim elas também são. Têm seus próprios compromissos e não se resumem basicamente na vida do parceiro que, se as quiserem mesmo ao seu lado, terão de dedicar-se ao máximo em fazê-las felizes, porque á elas não faltarão pretendentes a cada esquina virada já que a auto-estima e confiança, que são suas melhores amigas, fazem resplandecer ainda mais a beleza que carregam consigo diariamente.
     As diversidades femininas são inúmeras, e essas são apenas algumas das infindáveis categorias que eles provavelmente nomeiam ao ver uma mulher passar, mas o fato é que não importa o nome dado a cada uma das ‘tribos’. Eles nunca estarão satisfeitos com o que oferecemos. Vai faltar algo. Se não for bunda será peito, porque o resto tanto faz – ao menos aos olhos cegos para o interior, mas demasiadamente nítidos a tudo que se reverte ao sexo – e infelizmente esses representam a maioria. E se vierem em excesso também haverá reclamações porque seus atributos altamente generosos te fazem parecer vulgar. Caso esteja tudo em dia com o físico, prepare-se para ser alvejada no comportamento e também nas idéias. Sua possível solução para o problema da violência contra a mulher, ou ainda a maneira totalmente por eles maliciada de como você cruza sensualmente as pernas – por instinto, porque mulher gosta mesmo de seduzir a todos e não só àqueles por quem os inseguros se sentem ameaçados – afinal, é difícil de aceitar pensamentos tão modernos e um comportamento totalmente oposto à marionete que sempre os obedecia. Sempre haverá aquilo que se não for motivo suficiente pra ser considerado um defeito, eles o tornarão, simplesmente porque nem os próprios sabem exatamente a que procuram e por isso empurram às belas seus dilemas. Sinto lhes informar, mas pacote completo vocês nunca terão, e de uma vez por todas queiram aceitar a dita realidade, queridos, afinal, nunca se pode exigir de alguém aquilo que nós também somos incapazes de oferecer. E é isso o que têm nos mostrado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Escrevo, logo existo


     Se pensar é logo existir, quase faço as de Descartes minhas próprias palavras. Ao trocar o verbo, me reflito em um pensamento parecido com o do filósofo, pois quando escrevo é que existo. Não sei ao certo o dia em que nasceu em mim essa necessidade absurda de ter que colocar num papel todos os meus pensamentos às vezes tão transitórios, talvez de difícil compreensão e raramente constantes. Provavelmente há uns cinco ou seis anos, e o motivo era comum: paixonites nada mais do que platônicas. Mas de qualquer forma, só sei que preciso. Tomei gosto pela coisa e sempre que vejo o desespero, a melancolia, a felicidade ou qualquer outro sentimento dar sinal de vida nesse corpo que carrego, é frente às linhas ou ao teclado que me refugio confortavelmente.
     Antes de tudo, para mim. É este o destinatário final e primordial de todos os escritos. Estou á frente de qualquer alvo que pareço desejar atingir todas as vezes que transponho em palavras aquilo que minha garganta falha ao tentar dizer e minha boca teme balbuciar. Sou um tanto quanto problemática quando o dever é por para fora tudo o que se pensa e sente, a fim de solucionar possíveis desentendimentos. Não sai, e tentativas não me faltaram para chegar a tal conclusão. Embaraço-me nas ideias tumultuadas dentro da cabeça e acabo por piorar ainda mais a situação que às vezes chega a ser de estado de alerta, tamanha a necessidade do esclarecimento. Por isso, àqueles que já foram transcritos por mim, peço que não se sintam invadidos, porque, embora a suposta exposição possa ser sua, a necessidade é inteiramente minha.
     Vejo que esse texto está mais para uma justificativa das palavras que compartilho, porque há quem tenha uma imagem pejorativa do que coloco aqui, e faz-se valer de comentários infames quando – sei lá porque, já que não gostam daquilo que se deparam – dão o ar da graça ao blog. Tem quem zombe, quem ignore, quem critique sem meros fundamentos e pense que tenho a prepotência suficiente para querer ser a nova Clarice Lispector, já que também escrevo de maneira introspectiva como bem fazia a poetisa. Digo a esses que não! Que nunca tive como objetivo alfinetar alguém enquanto deponho minha vida e menos ainda em me fazer sentir digna de receber a dó de quem me lê. Se hoje prevaleço diante dos fatos que vejo relevantes e merecedores de narrações, é porque sei que os escolhidos para meus relatos terão do outro lado alguém que os acolha, pois enquanto alguns menosprezam, outros elogiam e fazem com que assim eu me sinta ainda mais motivada a continuar: pelo meu próprio bem.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Quando se quer mudança


     Fico pensando nesses capítulos do livro ainda inacabado que é minha vida. Tanta coisa inesperada, jamais imaginada antes. De tudo um pouco. Teve surpresa, teve dor, teve riso, teve lágrima, aventura, desespero, paixão e despaixão, dúvida e a presença – que já pensei ser ilustre – do amor.
     Pode parecer um comentário pessimista, mas essa observação dada ao último sentimento ai em cima que por todos é visto como algo tão esplêndido, não tem minha inteira crença. Quando se dá a cara á tapa e se recebe a bofetada, não bastando em um, mas dos dois lados da face – já que costumeiramente o amor próprio não é ativado ao se enganar pela primeira vez – dá para perceber que nem tudo caminha como deveria.
     Ao meu ver, em primeiro lugar o amor deve ser recíproco. Vejo então o ponta pé inicial para um futuro desastre, já que desconheço outro que se encaixe nessas particularidades senão aquele amor de pai e mãe. A gente conhece, conversa, se envolve, beija, abraça, se abre e ai um mundo novo nasce. E o pior: quando tudo isso é unilateral. Só um sente, só um cede, só um se entrega, e no bom e claro português que bem conhecemos, só um se fode.
     Não digo por aqueles que encontram os amores de suas vidas e namoram, e se casam, e têm filhos, e netos e uma vida cheia daquelas rotinas apaixonadas que até hoje só vi em propagandas da televisão. Falo apenas por mim, que até hoje desacredito desse tipo de convívio assim, tão ideal.
     Não é que ele não exista, apenas não chegou até mim. Não é que ele tenha se perdido no meio do caminho, apenas não é hora de se apresentar. Não é que ele não virá, está apenas esperando o momento certo de eu entendê-lo. Não é que eu não o mereça, apenas não saberia lidar nesse momento. Não é que não terei, por hora apenas não o conheço. E é melhor assim.
     Dizem que o tempo sabe a melhor hora de por cada peça em seu devido lugar. Acredito e não tenho pressa, mas a hospitalidade para receber e comprovar a imensidão dessas quatro letrinhas bate á minha porta sempre que ares de renovação afetiva aparecem. É fato e talvez errado, pois assim se espera demais daqueles que provavelmente não têm muito a oferecer.
     Por mais uma vez, posso estar defendendo meu ponto de vista válido até o fim do dia ou da semana, tamanha inconstância que vivo, mas, passo a passo a mente vai descansando, as idéias clareando e o coração se abrindo novamente à vida, porque talvez, tanta devoção tenha sido em vão e ainda que eu tenha me convencido do contrário por tantos meses, acho que já tive provas suficientes de que sou mais do que me deixei ser. Abro os olhos e encho de ar os pulmões que me dão vida para respirar e continuar a trilha que me foi reservada. E se for para olhar para trás e rever o que ficou, que seja apenas para não mais repetir o erro que me prendeu a simplesmente nada!

domingo, 9 de outubro de 2011

Estado civil: Preguiçosa


     Parece um detector. Uma olhada em volta do ambiente, um reparo no salto ou na roupa da menina ali do canto, e nada de importante. Um cara atraente em meio a uma roda de amigos e “Hmm, que gracinha”. Os olhos captam e apitam as qualidades que nos agradam e os flertes começam. Olhares, sorrisos e enfim a aproximação. “Oi, tudo bem?” A partir daí, ninguém sabe até onde a conversa vai fluir. É instinto e não tem o que fazer. Sair com as amigas, rir e revezar assuntos sérios com todas as futilidades que temos em mente é bom sim, mas se surge no caminho uma possível companhia do sexo oposto, melhor ainda. Se o papo foi bom e os dois encontraram interesses em comum, provavelmente o encontro se estenderá e obviamente, o beijo vai acontecer.
     Passado o primeiro momento e o beijo dado, as coisas já não são mais como no princípio. O objetivo foi alcançado e o brinquedinho já não tem mais nenhuma surpresa. O que era fogo começa a esfriar e nessa fusão, a água prestes a virar gelo já é constante. Aquela história de que “figurinha repetida não completa álbum” ainda é o lema da vida de alguns cuecas que parecem fazer questão de retardar o próprio cérebro, tamanha babaquice que sustentam e que nós, mulheres, por vezes ainda nos deixamos levar mesmo sabendo até onde essa marmelada pode acabar. Sendo parte desse grupo feminino que já não deposita fé alguma em qualquer atitude surpreendentemente positiva provinda de qualquer barbado que seja, adentrei-me a um novo estado civil.
     Atualmente, se me perguntarem, respondo que estou preguiçosa. Isso mesmo, nem solteira, nem namorando e menos ainda casada. Essa instabilidade que hoje é tão fácil de se ver nos relacionamentos chega a me dar preguiça – de querer, de investir, ir atrás e se envolver, porque o resultado é sempre o mesmo: dedicação de mais e retribuição de menos. Educadas à moda antiga, necessitadas de palavras carinhosas e gestos cavalheiros que nos façam sentir requisitadas e queridas, criamos em nossas inocentes cabecinhas a imagem de um homem que, de fato, está em extinção. Não peço a ninguém que pague a minha conta ou então abra a porta do carro antes que eu entre ou saia do mesmo. Acho desnecessário. Mas homens, aqui vai uma dica: não folguem nessa gentileza feminina que poupa certos esforços da parte de vocês, para se apossar do comodismo que parece ter tomado conta da boa vontade de bem tratar as moçoilas. Palavras carinhosas – não digo melosas – elevam nosso ego e ainda fazem vocês ganharem alguns pontinhos com a gente, desde que ditas com verdade, é claro! Também são bons referenciais para se dar bem conosco a pontualidade, o compromisso com o que se diz e acima de qualquer coisa, a sinceridade. Muito mais me admira um cafajeste que logo de cara expõe o que verdadeiramente quer e pensa, do que o suposto bom moço que aos poucos mostra suas facetas nada condizentes com o que antes foi anunciado. Ah, e sem mais moralismos, por favor, porque o visual conta sim, e em certos casos acaba sendo determinante para uma primeira impressão, que (in)felizmente, meus caros, é a que fica. Portanto, capricho na apresentação, até porque não há como negar que a primeira atração é física, e que através de um simples beijo de cumprimentos, não somos capazes de adivinhar suas possíveis qualidades, concordam?!
     A falta de interesse em seduzir é grande e como o dito, a preguiça maior ainda. O que fazer? Jogar tudo ao alto e abstrair: as possibilidades fracassadas, os desapontamentos já ganhos, e também as súplicas por aquilo que após balancear os valores, nota-se que não vale a pena, porque existem mulheres demais para homens de menos. Menos caráter, menos educação, menos respeito e consequentemente, menos merecimento de estar ao lado de uma verdadeira amada – de carne, osso e curvas sim, mas também de cérebro, alma, potencial, capacidades às vezes surpreendentes e ainda, sentimentos. Não há muito que fazer e talvez nem seja preciso. O Universo conspira a favor, ainda que não no momento de maior necessidade. Paciência é a palavra chave para receber em troca todos os benefícios já sacrificados pela ansiedade de ter outros pés encostando os próprios em meio ao lençol bagunçado por inteiro na cama, essa espécie de cela que sela o casal. Deixe que floresça a vaidade, o bem estar consigo mesma. O amor próprio também sopra boas vibrações e acredite: ele é o único que nunca vai te trair.

sábado, 24 de setembro de 2011

Dezoito


     Ele está chegando. Em breve e ao mesmo tempo vagaroso como quem é arrastado por um tédio contagiante em meio às horas da semana, que quase sempre é cansativa e me faz ansiosa por seu fim. Mas vem constante, cada dia mais próximo e eu, sem outra alternativa que acelere o ponteiro dos relógios, o aguardo.
     É curioso e estimulante tentar entender essa vontade implantada na juventude em querer envelhecer – pelo menos enquanto os fios de cabelos não branqueiem, a pele não enrugue e a lei da gravidade não dê os sinais de sua indesejável presença colocando para baixo tudo o que no lugar de sempre deveria permanecer. Todavia, se tornou convenção desejar e receber calorosamente a tão sonhada maioridade. Talvez alguns passos que a partir do décimo oitavo ano de vida possam ser tomados sozinhos, expliquem tamanha euforia até a chegada da hora certa de assoprar as velinhas sobrepostas no bolo que, simbolicamente, representa mais um ciclo encerrado. Pura ilusão. Que é que pode mudar da véspera de aniversário ao dia de glória que, na realidade, te dá dois tapinhas nas costas e de presente, o comunicado que a partir dali, você já pode ir preso e, se homem for, terá de alistar-se ao exército logo menos? Não adianta esperar pelo dia em que nasceu, dezoito anos após chorar e respirar sozinho pela primeira vez para então rebelar-se e acreditar ser dono do próprio nariz e os outros que te respeitem. Olha, se você não tem uma renda que te dê sustentação completa, que te faça independente das roupas passadas e engomadas que a mamãe faz questão de colocar em seu armário, que te locomova do centro da cidade ao bairro onde mora sem ligar para o papai te buscar, e ainda não tenha como se alimentar sem alguém que te chame dizendo que a comida está sobre a mesa, sinto lhe informar, mas é mais do que recomendável que você abaixe a crista que na adolescência insiste em querer se destacar e, mais uma vez, submeta-se às vontades de quem realmente merece respeito.
     Não quero ser tachada de careta e com um ar pessimista, negar toda essa liberdade que – em partes – os dezoito anos trazem. Adolescente que também sou, sei bem como é ter de esperar a idade imposta pela constituição para poder usufruir de certas ocasiões, e dentre elas, a mais cobiçada, a carteira de motorista. Sair pelas ruas cidade a fora sobre quatro rodas quando o mundo parece estar desabando bem em cima de nossas cabeças e sentir-se livre da hora marcada para colocar os pés de volta em casa; perambular por entre as esquinas e avenidas com os vidros abertos, deixando que o vento bata nos cabelos e refresque a alma que agora se sente, literalmente, maior, são algumas das tão notáveis diferenças cotidianas que vêm com os anos. E por falar em notáveis, há também o outro lado da questão que antes nunca fora visto, mas agora confunde e bloqueia tantas idéias um dia já quistas na prática.
     Escolhas e responsabilidades, profissionais ou sentimentais, da vida. O curso do vestibular que direcionará aos anos futuros vivendo daquilo que foi escolhido e tanto batalhado para se conseguir, em meio à tortura que é decorar as fórmulas mais desconexas que a física exige, as datas históricas de guerras e revoltas ou ainda a conjugação correta de um verbo defectivo. Estudar, estudar (geralmente aquilo que nunca será preciso). Palavra tenebrosa para mim, que sou contra qualquer obrigatoriedade que se mostre desnecessária às minhas necessidades vitais – e quanto a isso, me refiro ao parêntese pouco acima. Pensamentos antes longínquos aproximam-se em uma progressão geométrica que assusta. É preciso trabalhar, amadurecer e dar início á vida independente, trilhada com as próprias pernas e desprender-me do ninho que foi criado para que um dia eu abandonasse.
     Cresci, ainda que duvidem de tal fato e a essa nova fase dada à minha vida, temo e desconfio. É como se eu estivesse diante de um penhasco, segura apenas por um pára-quedas que talvez simbolize minha crença em algo que me tranqüilize, sejam santos, deuses, superstições, ou apenas a simpatia otimista pelo destino que agora me testa e me desafia pelas novas vertentes que o tempo imporá e que eu hei de encarar, sim.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

De proibido à deslumbrante


     Sensibilidade a mil, sentidos à flor da pele e, sabendo olhar, conclui-se o quanto é bonito o envolvimento entre dois corpos. Hipocrisia é querer recriminar o que no íntimo de cada um é tão desejado e ver como pecado o que mais se quer na companhia de alguém: a união de dois corpos, similares ou não. São ímpares todos os motivos que temos para fazer com que cada combinação seja única.
     Estar a sós com quem passaríamos o resto das horas nessa vida tão cheia de surpresas é o passaporte para a felicidade escancarada no riso que sai fácil do canto da boca e logo toma conta de todo o rosto nos segundos que parecem passar vagarosamente só de sentir a presença do outro. O aroma da pele, natural do ser humano, é que torna cada pessoa tão singular e nos remete no mesmo instante a quem plantou e ainda rega na companhia que teve, o desejo de repetir qualquer fragmento dos momentos que certamente são guardados na memória do corpo e da mente.
     Perdem-se os sentidos racionais que apressam cada minuto daquele episódio tão pacífico e dá-se o caminho livre para a entrega total ao prazer. Um simples encontro com aquele que desorganiza todas as formas de pensamentos já planejadas para quando esse dia chegasse, é a chave para o embaraço que mesmo na tentativa esperançosa de estar escondendo a turbulência que ele causa, é transparente não só para todos que figuram secundariamente aquela cena que tem como protagonistas o ‘casal’ ocasional, como também para a fonte de toda essa adrenalina. O beijo de cumprimento dado na bochecha, lento e intenso, transmite todas as intenções que estão por trás desse breve ato e logo são captadas por ele quando seguido de um olhar atento e fixo às íris castanhas.
     Os rostos se aproximam e já é perceptível a respiração ofegante que sai da boca entreaberta de ambos, as quais tiram de cena todos os milímetros que separam os lábios sedentos por um beijo. As mãos, ao mesmo tempo deslizantes e firmes, dão os cumprimentos umas as outras e como um ímã se entrelaçam sem nenhuma força contrária que as separe enquanto dura o abraço tão completo quanto duas peças de um quebra-cabeça que se encaixam; elas viajam por toda a extensão da pele que em um momento de completa entrega contraria qualquer pudor e deixa que sejam libertos todos os instintos camuflados nas vontades que há em cada corpo. Os olhos, cerrados, voltam aos poucos a se encarar após o laço que foi selado por um minuto. O coração fica palpitante e um frio inesperado que surge sabe-se lá de onde em meio a tanto calor humano, domina dos pés à cabeça o corpo que por hora é acéfalo – não pensa, só responde aos reflexos enviados e reciprocamente retribuídos pelos felizardos que acompanham um processo mútuo de pura inércia.
     Esqueça o perfume de rosas, a chuva de prata e os anjos fazendo a trilha sonora de sua noite de amor com sinos e harpas. Real e gratificante mesmo, é sentir a necessidade do outro em tê-la para si só; é a vontade de absorver todas as sensações dadas e recebidas onde a única intenção é a busca pela felicidade ainda que por uma ou duas horas. É sentir cada pelo dos braços, costas ou barriga ouriçados porque os poros da pele se arrepiam naquele momento, e notar as batidas cada vez mais freqüentes do coração que mal cabe dentro do peito, tamanha satisfação que vive até que... o mundo se transforma e todo aquele cenário imaginado a princípio, em termos meramente psicológicos, acontece. A intimidade é tanta que abre portas à possibilidade de confundir onde é que termina os cabelos longos e soltos da moça para dar início aos pelos pequenos e espetados da barba por fazer do rapaz. Só o que se sente é o cheiro suave e romântico das rosas, tudo o que chove é prata, ouro, estrelas e os demais astros que fizeram a noite, de fato, brilhar e as harpas e toda a orquestra que se ouve, nada mais são do que os suspiros que expressam – em uma só palavra – a plenitude experimentada.
     Vai embora, então, todo o transtorno que os impulsos hormonais e afetivos – independentes de amor e juras eternas – trazem consigo e ficam apenas as boas lembranças. Os pés que roçavam em sincronia um no outro, o braço musculoso que servia de apoio para os olhos que adormeciam, ou ainda os dedos delicados e leves que escorregavam do nariz em direção à testa com destino aos cabelos curtos que tanto são acariciados para amanhecer no outro dia com os dentes a mostra devido ao sorriso que estampa a cara e entrega os pensamentos. Como um filtro seletivo, do que não foi bom deve-se despedir, e apenas conviver diariamente com tudo aquilo que não se cansa de relembrar e esperar ansiosamente.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Demora, mas muda


     Eu sempre quis a liberdade, a não obrigação em dizer pra onde vou e com quem estou, o compromisso com o que é descompromissado, e que tem sido parte dos meus afetos desde que nos esbarramos por aí, e hoje, humana que sou, não consigo viver sem. Saio com uma interrogação em mente, confio no que o destino me reserva e destemo as aventuras que ele possa, eventualmente, me trazer. O salto alto permanece até o fim da festa, ainda que meus pés tentem me avisar através da dor que eles sequer deveriam ter saído de dentro do armário. Banheiro é lugar de descobrir as novas amizades que parecem ter sido feitas há anos. As batidas da música eletrônica – incansavelmente repetitiva – penetram no ouvido, alcançam o cérebro e lá permanecem por toda a noite. Imagem final: maquiagem borrada, olhos confundíveis com os de um panda, passos trocados com dificuldade de equilíbrio – o álcool responde por isso –, um beijo ou outro dado por uma simples atração momentânea e no dia seguinte, a dor de cabeça.
     Dói não só a cabeça em si e os dedos que foram massacrados pelo bico fino e o salto quinze. Vem acompanhada do comprimido e de um copo d’água que, juntos, espero que façam milagre em questão de minutos, a dor moral e a pergunta sempre na ponta da língua: “O que aconteceu ontem?” É certo que por bons tempos me diverti dessa maneira assim como a felicidade está em uma barra de chocolate pra uma mulher na TPM, entretanto, não afirmo mais com tanta convicção que é esse o tipo de vida que realmente liberta, mas a propósito, tenho que me libertar de quê? Acredito que do medo, da frustração e das desilusões antecedentes. Quem já trucidou qualquer fio de esperança nas palavras que saem da boca de alguém que esteve a um milímetro de tocar meus lábios, ou que até mais longe já foram, e me fizeram acreditar em princesas e príncipes encantados que vivem felizes para sempre, provavelmente tenha grande parcela de culpa pela superficialidade com a qual às vezes ajo. Na verdade tudo isso que chega a ser visto pela sociedade como erro, pra mim não passa de proteção para comigo e com meu ego. Bônus e ônus. Com tanta leveza ao levar a vida, as estações vão se misturando e o que seria confortável e prazeroso, passa a ser vergonhoso e mal dito – quase sempre pelos homens – que explicam o porquê de tanta repulsão com quem só quer aproveitar a vida (assim como eles) com uma única e indignante justificativa: “Mas eu sou homem.” Não preciso de mais nada que faça minha ira crescer em um espaço de tempo tão curto; nem xingamentos, nem provocações. Daí mesmo que nasce essa vontade louca de sair e fazer tudo o que der na telha na primeira oportunidade que aparecer, pra acabar com esse machismo mesquinho que controla a cabeça de tantos “homens” hoje em dia, porém, mesmo depois de décadas de luta, a voz grave e os pelos no rosto ainda sobressaem todo tipo de feminilidade.
     Em qualquer tópico que se discuta, a ponderação é sempre vista como primordial e eu, libriana nata, tento representar o símbolo que o zodíaco dispõe para os nascidos na primavera. Na balança, equilibro-me. Busco pela dosagem certeira entre minha razão – que pede a todo instante que eu jamais me deixe levar pelos sussurros cantados ao pé da orelha que querem me testar até o último nível do domínio do meu psicológico – e a minha emoção – que abomina essa resistência racional em querer responder por todos os atos do coração que nunca são pensados e sempre sentidos. Falho. Sou mais amores e menos temores; rejeito as hesitações e me disponho sempre a conhecer o novo, ainda que meu histórico, todavia marcante, continue me habitando. E isso é bom! Bom, porque deixa de fazer sentido a superficialidade já dita aqui mesmo e me faz querer partir na direção de algo mais intrínseco. Bom, porque em um momento, se torna cansativo voltar pra casa com a sensação vazia de ter abraçado o mundo em uma noite e reconhecer que de nada adiantou os flashes de loucura se a vontade era ter um peito pra amparar minha cabeça de pensamentos tão turbulentos e inconstantes quando eu me deitasse e adormecesse.
     Não imaginava que tão cedo me viria esse desejo que ainda é difícil de engolir, já que por tanto tempo achei desnecessária e problemática a relação estável entre dois corações. Satisfações, discórdias, ciúmes e tolerâncias (ou a falta de todos eles) me fariam desistir com facilidade. Por outro lado, agradeço por ter essa disponibilidade que sempre me deixa tentar; novas experiências, novas pessoas e, quem sabe por conseqüência dessa abertura que dou à vida, passar por cima de todos os pré-conceitos que um dia dei a uma relação VERDADEIRA, dessas apaixonadinhas mesmo, que me acorde com uma mensagem de bom dia e saiba os lugares estratégicos pra me fazer cócegas e me levar ao riso sem moderação, ou ainda ser presenteada com flores, porque toda mulher por mais moderna e dona de si que seja, esconde em seu interior a sensibilidade e a satisfação em se sentir querida. Estou nesse grupo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mulher de peito


     Estatura baixa, cabelos longos, riso fácil. Pela descrição, uma menina normal, provável de se ver em uma loja, no shopping, ou sentada em uma mesa de bar. É boa de conversa até. Gargalha e não teme os vexames que dá entre um mal entendido ou outro. Desenvolveu repentinamente, talvez pela ajuda da dança. Teve os músculos enrijecidos e trabalhados pelo ballet, rotulado coisa de menininha, mas era mais do que sua vontade ver qualquer um que paga de machão ter força para sustentar uma perna no ar sem perder a respiração correta, lembrar de estender os joelhos e para finalizar, sorrir e fazer o movimento parecer leve, prazeroso. É... só quem pratica sabe do esforço invisível por fora, e torturante por dentro que é exigido entre um plié ou um tendue.
     Não se acanha em exibir os músculos que tanto gosta e usa sim saias e shorts que mostrem as pernas saradas – resultado positivo do esforço que era semanal. Até aí, tudo bem, mas se junto da saia, casa com ela uma blusa de alcinha... Pronto, o caos se inicia. E tudo isso por um mínimo detalhe que ela sequer tem culpa. Não escolheu, nem ao menos optou no tamanho de seu problema, que na verdade, parece incomodar mais os outros do que a própria dona: peitos! Os genes que vieram do pai e da mãe se encarregaram de trazê-la tantos comentários, que às vezes de tão desnecessários, teriam de ser relevados para evitar qualquer tipo de constrangimento, complexo ou incômodo.
     “Deve ser biscate.” “Não se valoriza.” “No mínimo a família não dá o exemplo.” “Uma maçaneta com certeza é mais limpa do que a boca dela.” “Tem cara de quem pega e logo em seguida descarta.” “Não se dá o respeito.” “Não anda com boa gente.” Sim, meus caros, tudo isso sai da boca de quem precocemente julga alguém que nem conhece e tenta dar a ficha completa do “produto” atirando em sua direção dos pés à cabeça, sem deixar de dar prioridade a qualquer característica que possa fazer repercutir os pensamentos maliciosos.
     A indignação da menina era imediata. Como poderiam fazer um completo raio-x da moça baseando-se em reflexos do crescimento – que é natural em todos – ? Isso significa que antes da puberdade, ela até serviria para coisas úteis, quiçá pudesse ser uma garota prodígio, seja nas artes, no esporte ou nos estudos, mas depois que cresceu e tomou formas, é vista como uma espécie de catálogo de maus exemplos? De fato, o pré-conceito humano chega a ser lamentável.
     Ainda que fosse só através da boca de pessoas desprezíveis que ela fosse alvejada por tanta baixaria, nem tudo estava perdido, porém, tal calamidade prolifera na mente de pessoas que a conhecem por um ou dois encontros casuais e fazem uma imagem totalmente denegrida do que poderia ser provado o contrário, provocando um estrago ainda maior: a aproximação interesseira de algumas pessoas – sempre do sexo oposto.
     Eles sempre vêm com segundas intenções. Na noite que poderiam suceder, no corpo que estaria à suas disposições, no sutiã que desabotoariam com tanta selvageria e, se esquecem que por trás de toda aquela capa revestida de rendas ou algodão, há uma cabeça que pensa e um coração que sente. Há alguém que não é biscate! Que se valoriza, sim! Que tem uma família exemplar, com toda certeza e certamente é mais limpa do que qualquer porta. Se ela pegou e descartou, acredito que teve seus motivos, e conseqüentemente, se valorizou, afinal, que se levante e atire a primeira pedra o homem que nunca pecou com uma mulher e, por fim, declara que anda sim com boa gente e que talvez foram essas que fizeram com que a abençoada na comissão de frente passasse a enxergar seu corpo como um presente e não como um castigo. Até porque, como é bom poder diversificar os mais variados modelos – que são inúmeros –, cada um para a ocasião que se tem em mente, indo do cor de rosa com babadinhos e bolinhas brancas estampando a menina que habita o corpo de cada mulher àquele vermelho-vinho, de renda, que exala sensualidade. Como é bom poder preencher um sutiã que dê o encaixe perfeito no corpo e sem dúvidas faz qualquer mulher se sentir mais dona de si, poderosa e desejada, mas não por um bando de trogloditas que só sabem pensar com a cabeça inferior, e sim por poucos, que por elas serão escolhidos á dedos e se um dia merecedores, serão donos de uma felicidade indescritível oriunda de uma mulher de peito, e não só de seios, desconhecida do olhar vago e egoísta de simples seres animalescos que por muitas vezes jogaram no lixo o que poderiam ter ganhado de mais valioso, e que estava escondido para que apenas o mais digno encontrasse, mas que a carne - como barreira - impossibilitou os outros de vê-lo: seu coração!