domingo, 25 de setembro de 2011

Com surpresa, supre sua presa


     Melhor assim. Você finge que me adora e que não vê companhia melhor do que eu para não fechar a noite no zero a zero, enquanto eu finjo que acredito nas suas palavras que me colocam no mais alto dos pedestais (mas que na realidade têm o único intuito de me convencer que não tenho motivos para te negar) e que não há mulher na face da Terra que preferiria não ouvi-las. Negócio fechado! Conveniência aos dois. Até porque, seria o ápice da auto-confiança querer que eu ainda cresse piamente no seu papo politicamente correto e me deixasse engabelar outra vez por sua voz mais do que sedutora. E não é o que acontece. Quer dizer, é, mas não na proporção que, você, graduado e doutor na arte da conquista, pode um dia ter pensado conseguido já que caiu na própria armadilha – deu os passos maiores do que as próprias pernas e nessa tentativa equilibrista de ser, pôs abaixo o circo que me apresentou. Ou não, não sei bem o que pensar, mas talvez – e eu até acredito que realmente – tudo tenha sido de caso pensado, entretanto, admiravelmente, eu soube domar os meus anseios e devolver a importância recebida em igual quantia e valor.
     Burra eu não sou. Jamais deixaria então, que escapasse por entre meus dedos sua pele e seus cabelos áureos que – quando queremos – combinam tão bem com os meus que não têm uma cor ao certo definida. Toda vez que aparece inesperadamente e toma o lugar de tudo que durante sua vontade de estar foragido fora exterminado da minha cabeça, faz com que cada momento volte como um flash ou qualquer coisa de velocidade equivalente e me domina com destreza; fica em um segundo plano, então, todas as ocasiões, sugestões e oportunidades que me aguardariam caso eu te deixasse para depois. Mas não, você é preferência. E sabe de uma coisa? Eu não me importo. Nem com o seu sumiço sempre tão aparente e nem com o seu discurso exatamente no meu ponto fraco – entre a lateral do pescoço e o pé do ouvido – que, enlouquecedor, certamente é decorado silabicamente para, quem sabe, mais tarde ser recitado de novo a uma próxima vítima logo depois que nos aproximarmos do portão da minha casa e eu abrir a porta do seu carro com um pesar que tento fazer invisível, tentando me mostrar apática diante dos seus olhos que não me deixam ir embora sem antes fitar cada centímetro das minhas pernas à mostra na saia preta que tanto gosto.
     Apesar desse seu jeito malandro, gosto de você, mas não a ponto de apaixonada, deixar tudo para trás e viver em função do mistério que te mantém de pé. Gosto é dessa espécie de interrogação que vejo exposta nos seus dizeres, nas atitudes e expressões, e da incerteza que nos ronda, tornando inesperados, e talvez por isso, sempre marcantes os nossos encontros toda vida casuais. Me confunde quando menos espero. A pessoa que me faz sentir a escolhida para representar toda felicidade que esse mundo já viu, esvai-se e deixa apenas em minha cabeça um verdadeiro interrogatório que busca o porquê de tanta contradição. Não era preciso nada do que foi me mostrado, se a intenção final era apenas momentânea. Rio então, da sua tolice e desse tipo de atitude que apenas me faz te ver vazio, infelizmente.
     Ainda assim, como de costume na minha personalidade passiva, deixo pra lá todos os incômodos que me cutucam para que eu faça algo e ponha de uma vez por todas os pingos nos is. Fico com o confortável, e no banco do passageiro, lá pelas quatro ou cinco da manhã, assisto os seus olhos encarando os meus com um sorriso leve e intencionado no canto da boca que masca um chiclete de melancia – me fazendo gostar do sabor que até então pra mim nada mais era do que exótico e desconhecido – enquanto seus dedos deslizam até o botão do vidro elétrico que os fecha, e nesse movimento, me mostram sua tatuagem no braço que por mim é tão elogiada e que exibe sua fé, sua crença em alguém de força maior do que seu próprio ego sempre tão bem massageado.
     Simultaneamente aos vidros que sobem, o mesmo acontece com os meus pensamentos a essa altura já mirabolantes, que devaneiam em um plano nada terrestre, momentos de sentimentos mistos a partir dali. E assim vamos até que a euforia passe e voltem a contracenar os pensamentos agora centralizados, as ambas opiniões sobre qualquer assunto como seu trabalho, por exemplo, que você julga tão cansativo e cuja tensão do mesmo eu tento amenizar quando estamos juntos, até que o ciclo todo recomece em um dia que eu não sei quando e se virá. Me preparo então para mais uma vez me despedir de você – da maneira como descrevi – e dessa constante eventualidade que vivemos, com um lema em mente que exprime algo do tipo ‘sempre, mas agora pela última vez’.

sábado, 24 de setembro de 2011

Dezoito


     Ele está chegando. Em breve e ao mesmo tempo vagaroso como quem é arrastado por um tédio contagiante em meio às horas da semana, que quase sempre é cansativa e me faz ansiosa por seu fim. Mas vem constante, cada dia mais próximo e eu, sem outra alternativa que acelere o ponteiro dos relógios, o aguardo.
     É curioso e estimulante tentar entender essa vontade implantada na juventude em querer envelhecer – pelo menos enquanto os fios de cabelos não branqueiem, a pele não enrugue e a lei da gravidade não dê os sinais de sua indesejável presença colocando para baixo tudo o que no lugar de sempre deveria permanecer. Todavia, se tornou convenção desejar e receber calorosamente a tão sonhada maioridade. Talvez alguns passos que a partir do décimo oitavo ano de vida possam ser tomados sozinhos, expliquem tamanha euforia até a chegada da hora certa de assoprar as velinhas sobrepostas no bolo que, simbolicamente, representa mais um ciclo encerrado. Pura ilusão. Que é que pode mudar da véspera de aniversário ao dia de glória que, na realidade, te dá dois tapinhas nas costas e de presente, o comunicado que a partir dali, você já pode ir preso e, se homem for, terá de alistar-se ao exército logo menos? Não adianta esperar pelo dia em que nasceu, dezoito anos após chorar e respirar sozinho pela primeira vez para então rebelar-se e acreditar ser dono do próprio nariz e os outros que te respeitem. Olha, se você não tem uma renda que te dê sustentação completa, que te faça independente das roupas passadas e engomadas que a mamãe faz questão de colocar em seu armário, que te locomova do centro da cidade ao bairro onde mora sem ligar para o papai te buscar, e ainda não tenha como se alimentar sem alguém que te chame dizendo que a comida está sobre a mesa, sinto lhe informar, mas é mais do que recomendável que você abaixe a crista que na adolescência insiste em querer se destacar e, mais uma vez, submeta-se às vontades de quem realmente merece respeito.
     Não quero ser tachada de careta e com um ar pessimista, negar toda essa liberdade que – em partes – os dezoito anos trazem. Adolescente que também sou, sei bem como é ter de esperar a idade imposta pela constituição para poder usufruir de certas ocasiões, e dentre elas, a mais cobiçada, a carteira de motorista. Sair pelas ruas cidade a fora sobre quatro rodas quando o mundo parece estar desabando bem em cima de nossas cabeças e sentir-se livre da hora marcada para colocar os pés de volta em casa; perambular por entre as esquinas e avenidas com os vidros abertos, deixando que o vento bata nos cabelos e refresque a alma que agora se sente, literalmente, maior, são algumas das tão notáveis diferenças cotidianas que vêm com os anos. E por falar em notáveis, há também o outro lado da questão que antes nunca fora visto, mas agora confunde e bloqueia tantas idéias um dia já quistas na prática.
     Escolhas e responsabilidades, profissionais ou sentimentais, da vida. O curso do vestibular que direcionará aos anos futuros vivendo daquilo que foi escolhido e tanto batalhado para se conseguir, em meio à tortura que é decorar as fórmulas mais desconexas que a física exige, as datas históricas de guerras e revoltas ou ainda a conjugação correta de um verbo defectivo. Estudar, estudar (geralmente aquilo que nunca será preciso). Palavra tenebrosa para mim, que sou contra qualquer obrigatoriedade que se mostre desnecessária às minhas necessidades vitais – e quanto a isso, me refiro ao parêntese pouco acima. Pensamentos antes longínquos aproximam-se em uma progressão geométrica que assusta. É preciso trabalhar, amadurecer e dar início á vida independente, trilhada com as próprias pernas e desprender-me do ninho que foi criado para que um dia eu abandonasse.
     Cresci, ainda que duvidem de tal fato e a essa nova fase dada à minha vida, temo e desconfio. É como se eu estivesse diante de um penhasco, segura apenas por um pára-quedas que talvez simbolize minha crença em algo que me tranqüilize, sejam santos, deuses, superstições, ou apenas a simpatia otimista pelo destino que agora me testa e me desafia pelas novas vertentes que o tempo imporá e que eu hei de encarar, sim.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

De proibido à deslumbrante


     Sensibilidade a mil, sentidos à flor da pele e, sabendo olhar, conclui-se o quanto é bonito o envolvimento entre dois corpos. Hipocrisia é querer recriminar o que no íntimo de cada um é tão desejado e ver como pecado o que mais se quer na companhia de alguém: a união de dois corpos, similares ou não. São ímpares todos os motivos que temos para fazer com que cada combinação seja única.
     Estar a sós com quem passaríamos o resto das horas nessa vida tão cheia de surpresas é o passaporte para a felicidade escancarada no riso que sai fácil do canto da boca e logo toma conta de todo o rosto nos segundos que parecem passar vagarosamente só de sentir a presença do outro. O aroma da pele, natural do ser humano, é que torna cada pessoa tão singular e nos remete no mesmo instante a quem plantou e ainda rega na companhia que teve, o desejo de repetir qualquer fragmento dos momentos que certamente são guardados na memória do corpo e da mente.
     Perdem-se os sentidos racionais que apressam cada minuto daquele episódio tão pacífico e dá-se o caminho livre para a entrega total ao prazer. Um simples encontro com aquele que desorganiza todas as formas de pensamentos já planejadas para quando esse dia chegasse, é a chave para o embaraço que mesmo na tentativa esperançosa de estar escondendo a turbulência que ele causa, é transparente não só para todos que figuram secundariamente aquela cena que tem como protagonistas o ‘casal’ ocasional, como também para a fonte de toda essa adrenalina. O beijo de cumprimento dado na bochecha, lento e intenso, transmite todas as intenções que estão por trás desse breve ato e logo são captadas por ele quando seguido de um olhar atento e fixo às íris castanhas.
     Os rostos se aproximam e já é perceptível a respiração ofegante que sai da boca entreaberta de ambos, as quais tiram de cena todos os milímetros que separam os lábios sedentos por um beijo. As mãos, ao mesmo tempo deslizantes e firmes, dão os cumprimentos umas as outras e como um ímã se entrelaçam sem nenhuma força contrária que as separe enquanto dura o abraço tão completo quanto duas peças de um quebra-cabeça que se encaixam; elas viajam por toda a extensão da pele que em um momento de completa entrega contraria qualquer pudor e deixa que sejam libertos todos os instintos camuflados nas vontades que há em cada corpo. Os olhos, cerrados, voltam aos poucos a se encarar após o laço que foi selado por um minuto. O coração fica palpitante e um frio inesperado que surge sabe-se lá de onde em meio a tanto calor humano, domina dos pés à cabeça o corpo que por hora é acéfalo – não pensa, só responde aos reflexos enviados e reciprocamente retribuídos pelos felizardos que acompanham um processo mútuo de pura inércia.
     Esqueça o perfume de rosas, a chuva de prata e os anjos fazendo a trilha sonora de sua noite de amor com sinos e harpas. Real e gratificante mesmo, é sentir a necessidade do outro em tê-la para si só; é a vontade de absorver todas as sensações dadas e recebidas onde a única intenção é a busca pela felicidade ainda que por uma ou duas horas. É sentir cada pelo dos braços, costas ou barriga ouriçados porque os poros da pele se arrepiam naquele momento, e notar as batidas cada vez mais freqüentes do coração que mal cabe dentro do peito, tamanha satisfação que vive até que... o mundo se transforma e todo aquele cenário imaginado a princípio, em termos meramente psicológicos, acontece. A intimidade é tanta que abre portas à possibilidade de confundir onde é que termina os cabelos longos e soltos da moça para dar início aos pelos pequenos e espetados da barba por fazer do rapaz. Só o que se sente é o cheiro suave e romântico das rosas, tudo o que chove é prata, ouro, estrelas e os demais astros que fizeram a noite, de fato, brilhar e as harpas e toda a orquestra que se ouve, nada mais são do que os suspiros que expressam – em uma só palavra – a plenitude experimentada.
     Vai embora, então, todo o transtorno que os impulsos hormonais e afetivos – independentes de amor e juras eternas – trazem consigo e ficam apenas as boas lembranças. Os pés que roçavam em sincronia um no outro, o braço musculoso que servia de apoio para os olhos que adormeciam, ou ainda os dedos delicados e leves que escorregavam do nariz em direção à testa com destino aos cabelos curtos que tanto são acariciados para amanhecer no outro dia com os dentes a mostra devido ao sorriso que estampa a cara e entrega os pensamentos. Como um filtro seletivo, do que não foi bom deve-se despedir, e apenas conviver diariamente com tudo aquilo que não se cansa de relembrar e esperar ansiosamente.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Demora, mas muda


     Eu sempre quis a liberdade, a não obrigação em dizer pra onde vou e com quem estou, o compromisso com o que é descompromissado, e que tem sido parte dos meus afetos desde que nos esbarramos por aí, e hoje, humana que sou, não consigo viver sem. Saio com uma interrogação em mente, confio no que o destino me reserva e destemo as aventuras que ele possa, eventualmente, me trazer. O salto alto permanece até o fim da festa, ainda que meus pés tentem me avisar através da dor que eles sequer deveriam ter saído de dentro do armário. Banheiro é lugar de descobrir as novas amizades que parecem ter sido feitas há anos. As batidas da música eletrônica – incansavelmente repetitiva – penetram no ouvido, alcançam o cérebro e lá permanecem por toda a noite. Imagem final: maquiagem borrada, olhos confundíveis com os de um panda, passos trocados com dificuldade de equilíbrio – o álcool responde por isso –, um beijo ou outro dado por uma simples atração momentânea e no dia seguinte, a dor de cabeça.
     Dói não só a cabeça em si e os dedos que foram massacrados pelo bico fino e o salto quinze. Vem acompanhada do comprimido e de um copo d’água que, juntos, espero que façam milagre em questão de minutos, a dor moral e a pergunta sempre na ponta da língua: “O que aconteceu ontem?” É certo que por bons tempos me diverti dessa maneira assim como a felicidade está em uma barra de chocolate pra uma mulher na TPM, entretanto, não afirmo mais com tanta convicção que é esse o tipo de vida que realmente liberta, mas a propósito, tenho que me libertar de quê? Acredito que do medo, da frustração e das desilusões antecedentes. Quem já trucidou qualquer fio de esperança nas palavras que saem da boca de alguém que esteve a um milímetro de tocar meus lábios, ou que até mais longe já foram, e me fizeram acreditar em princesas e príncipes encantados que vivem felizes para sempre, provavelmente tenha grande parcela de culpa pela superficialidade com a qual às vezes ajo. Na verdade tudo isso que chega a ser visto pela sociedade como erro, pra mim não passa de proteção para comigo e com meu ego. Bônus e ônus. Com tanta leveza ao levar a vida, as estações vão se misturando e o que seria confortável e prazeroso, passa a ser vergonhoso e mal dito – quase sempre pelos homens – que explicam o porquê de tanta repulsão com quem só quer aproveitar a vida (assim como eles) com uma única e indignante justificativa: “Mas eu sou homem.” Não preciso de mais nada que faça minha ira crescer em um espaço de tempo tão curto; nem xingamentos, nem provocações. Daí mesmo que nasce essa vontade louca de sair e fazer tudo o que der na telha na primeira oportunidade que aparecer, pra acabar com esse machismo mesquinho que controla a cabeça de tantos “homens” hoje em dia, porém, mesmo depois de décadas de luta, a voz grave e os pelos no rosto ainda sobressaem todo tipo de feminilidade.
     Em qualquer tópico que se discuta, a ponderação é sempre vista como primordial e eu, libriana nata, tento representar o símbolo que o zodíaco dispõe para os nascidos na primavera. Na balança, equilibro-me. Busco pela dosagem certeira entre minha razão – que pede a todo instante que eu jamais me deixe levar pelos sussurros cantados ao pé da orelha que querem me testar até o último nível do domínio do meu psicológico – e a minha emoção – que abomina essa resistência racional em querer responder por todos os atos do coração que nunca são pensados e sempre sentidos. Falho. Sou mais amores e menos temores; rejeito as hesitações e me disponho sempre a conhecer o novo, ainda que meu histórico, todavia marcante, continue me habitando. E isso é bom! Bom, porque deixa de fazer sentido a superficialidade já dita aqui mesmo e me faz querer partir na direção de algo mais intrínseco. Bom, porque em um momento, se torna cansativo voltar pra casa com a sensação vazia de ter abraçado o mundo em uma noite e reconhecer que de nada adiantou os flashes de loucura se a vontade era ter um peito pra amparar minha cabeça de pensamentos tão turbulentos e inconstantes quando eu me deitasse e adormecesse.
     Não imaginava que tão cedo me viria esse desejo que ainda é difícil de engolir, já que por tanto tempo achei desnecessária e problemática a relação estável entre dois corações. Satisfações, discórdias, ciúmes e tolerâncias (ou a falta de todos eles) me fariam desistir com facilidade. Por outro lado, agradeço por ter essa disponibilidade que sempre me deixa tentar; novas experiências, novas pessoas e, quem sabe por conseqüência dessa abertura que dou à vida, passar por cima de todos os pré-conceitos que um dia dei a uma relação VERDADEIRA, dessas apaixonadinhas mesmo, que me acorde com uma mensagem de bom dia e saiba os lugares estratégicos pra me fazer cócegas e me levar ao riso sem moderação, ou ainda ser presenteada com flores, porque toda mulher por mais moderna e dona de si que seja, esconde em seu interior a sensibilidade e a satisfação em se sentir querida. Estou nesse grupo.

domingo, 14 de agosto de 2011

"... Mas chegou ao fim"


     Olha, eu prometi pra mim mesma que não iria mais escrever qualquer palavra sobre você, mas é isso o que melhor sei fazer sempre que me encontro tão tangível, bem como tenho estado hoje. Não tenho mais o que falar e ainda assim escrevo, apago e reescrevo, buscando nas linhas de cada folha, a cada nova palavra, uma tentativa, um meio de colocar pra fora tudo isso que me consome e então tentar te expulsar de dentro de mim como quem joga fora tudo o que já não é mais útil para si – contas pagas, roupas velhas, amores irreversíveis. Mas não consigo e não há adjetivos, comparações ou metamorfoses que exprimam e entendam o que se passa nesse caminho tão estreito e seletivo no qual meu coração se transformou e que é o lugar em que você vem bravamente se encaixando com total liderança há tempos.
     Começo te pedindo desculpas caso você se sinta exposto quando te descrevo. Tudo o que eu não quero é que você se incomode com qualquer lembrança que em mim é mantida viva e, ainda que camuflada nas turbulências do dia a dia algumas vezes, destacam-se imediatamente quando te vejo. É assim mesmo, sem exageros ou hipérboles: os segundos que tenho ao seu lado, mesmo que não mais a sós, são suficientes pra me deixar perdida em meio a caminhos que antes eu poderia traçar de olhos vendados. Ainda sinto uma sensação mista de frio e calor quando você chega. Meu estômago se comprime, a boca seca, as mãos transpiram, as pernas tremem e o coração quase salta sobre suas mãos pedindo por socorro, como uma vítima de alguma tragédia que perde tudo o que tem, pois assim estou: perdida e desabrigada de ti.
     Já me tornei repetitiva e disso eu tenho consciência, entretanto é desesperador ter que abraçar o travesseiro, (já encharcado de lágrimas) como consolo, por eu não poder te envolver em mim e sentir que meus braços não se encontram quando te abraço porque você é maior que eu. E dói. Dói como nenhuma outra dor. Dói mais do que um arranhão, um corte, ou alguma parte do corpo que é quebrada. Dói porque não tem comprimido nem homeopatia que cure a saudade. Dói e dá vontade de abrir o peito, partir pra ignorância, te devolver o que é só seu e dizer “toma, agora se vira e vê se cuida direito, hein?!”
     Já não há mais espaço pra mim, nem mesmo físico porque nos incomodamos com a presença um do outro e isso está escancarado na cara de tacho que fazemos quando nos vemos, ou melhor, quando não nos vemos, porque falta nexo até para uma troca de olhares, fracionária nos segundos, que seja, que não deixa disfarçar a inconveniência e a falta de suporte de um ambiente para dois corpos conturbados e carregados, mas talvez até seja melhor assim, pois te estranho, quando passa por mim, vejo que é só mais uma pessoa pra cumprimentar – quando estou em público – e, agora, mais raro do que nossas trombadas num bar ou na casa de um amigo, é a falta de um elo que não sei qual é, mas que já nos ligou.
     Não peço mais que você volte, e sim que vá. Siga sua sina, abrace sua sorte e viva seu caminho da melhor forma que puder. Tenho a plena confiança de que será feliz da forma que quiser, e esta felicidade certamente será fruto de todos os seus princípios que são fonte da minha berrante admiração. Enquanto isso eu te assisto aqui do outro lado com o carinho de quem aprendeu, caiu e hoje tenta se reerguer do tombo de quem a derrubou com aparentes boas intenções.
     Ignore qualquer prova – óbvia, inesperada ou incompreensível – do meu amor se você quiser e me ignore também, mas respeite e não julgue. Não o sentimento, mas qualquer atitude que possa ser conseqüência dele e pela última vez, acredite, ele existe!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Nostálgica


     Sinto o cheiro da sala e o barulho da televisão que noticia o cotidiano do estado vizinho. Mais alguns passos e me deparo com o espelho que por tantas vezes me viu arrumar os cabelos e amarrar a canga na cintura e, quando me viro de costas, involuntariamente, espero te ver deitado na cama que um dia eu chamei de “nossa”.
     Reviver cada momento da etapa que certamente dividiu a minha vida em antes e depois de você, não foi nada fácil por um simples e estrondoso motivo: sua ausência. Digo simples porque não tenho mais justificativa alguma para a minha decadência repentina de humor enquanto me desloco da varanda em direção à piscina, a não ser a falta do seu peito sem camisa, ou seus pés à minha vista calçando chinelos de dedo. Estrondosa, pois mesmo estando tão longe, minha cabeça puxava como um ímã o timbre da sua voz que agora me tortura por não mais tê-la mesmo que fosse para ouvir seu tom nas brincadeiras, que era quase sempre agressivo, rude e sem um pingo de doçura.
     Volto no tempo em meu mundo criado a partir de você e me isolo no conforto que as memórias suavemente infernais me trazem e que eu me lembro como se estivessem acontecendo hoje, já que diariamente – e sozinha – me recordo dessa espécie de paraíso que você me deu. Ver seus olhos descansados e poder te fazer relaxar, massagear suas costas e, acariciar seus cabelos mostrava a forma mais sensível com a qual eu retribuía os seus cuidados com a minha distração e tão notável inexperiência. Acordar imóvel por seus braços, era a maneira mais linda de começar o dia que já havia dado os cumprimentos há horas, mas, deixa o relógio despertar, o sol se pôr e a lua cair; não tinha com o que me preocupar se minha única preocupação estava ao meu lado, visivelmente em paz e se incomodava apenas com a luz do sol que naquele momento invadia o quarto pela fresta da janela sem nos pedir permissão.
     Conheço de você uma pessoa que tira todas as palavras que meu vocabulário conhece só para me deixar sempre assim, a mercê de seus pensamentos e interesses, mesmo que os meus fossem (e sempre eram) tão contrários aos que me dominavam a cada vez que você abria a boca e cogitava mostrar o sorriso que já me fez e, indiscutivelmente, ainda me faria perder a cabeça com tanta maestria. Seu jeito sempre disposto a ajudar nos serviços braçais, de força e coragem me provam a sua masculinidade quando não se mostra ser só mais um bruta-monte preocupado com os músculos e a fila de menininhas que ainda tem pra pegar e, confirma isso tendo opinião em todos os assuntos que debate, seja para falar da cerveja na sexta, do jogo de futebol no domingo, do vestibular na segunda, ou do trabalho de daqui a alguns anos, sempre com total domínio sobre o que discursa.
     Te vejo homem, ainda que discordem de mim, e é essa a imagem que fica apesar de todos os martírios que passei enquanto lutava desesperadamente por você, sendo que na maioria das vezes, estava sem qualquer tipo de instrução que me guiasse para o caminho certo até seu coração. Compreendo que me precipitei, me perdi, buscava tanto por um erro seu que me pusesse em vantagem na nossa história, que acabava sempre por derrubar um balde de água fria em qualquer pedacinho que pudesse colar essa peça de porcelana – tamanha delicadeza da nossa situação – que um dia fomos, ao te ver jogando na minha cara sua compreensão tão clara e objetiva de tudo que eu nunca consegui entender: seus pensamentos.
     Sim, no passado, fomos. Não mais presente, quem sabe, futuro. Te espero hoje assim como ontem, mas não como antes e, mesmo se não voltar, terá sempre seu espaço reservado em meu coração, que hoje está em paz, consciente e conformado da calamidade que não pôde ser evitada. Deixo as águas correrem, os anos passarem, as idéias amadurecerem, e os verdadeiros sentimentos aflorarem, pois sei que de alguma forma, representei algo para você. Só te peço que não duvide. Mesmo que não acredite, jamais ouse duvidar de cada palavra que eu tive a coragem de te dizer nos meus momentos mais fracos, quando eu deixei de lado todo e qualquer orgulho que ainda me restasse para te mostrar da maneira mais sincera que o que eu digo, é o que sinto, ainda que em solidão, e sem nenhum motivo que me estimule a seguir adiante nesse oceano que me encorajei em navegar, do qual você mal conhece uma gota, mas que persisto com algum intuito que só o tempo poderá me fazer descobrir qual é.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Deponho a saudade


     Escrevo, pois tenho a sensação de que essa é a única maneira de me colocar mais perto de você e de tudo aquilo que por um dia eu tive como eternidade, mas que se foi tão rápido como quando veio, e hoje é o que peço desesperadamente que volte para me fazer sentir outra vez as mínimas sensações, próprias de cada encontro que era tão similar a todos os anteriores, mas ao mesmo tempo tão únicos como se estivéssemos vivendo cada detalhe um do outro pela primeira vez. Sua experiência me acalmava na calada da noite e me dava a certeza de que presa em seus braços eu estaria protegida de qualquer maldade que pudesse me cercar. Com o tempo, vendo como decorreu nosso envolvimento, mesmo sabendo da superficialidade com a qual você enchia a boca para me fazer acreditar nas suas promessas válidas por não mais que uma madrugada, queria me convencer de que o que eu vivia ao seu lado se tornaria – aos poucos – amor.
     Há algo de misterioso em você que não consigo desvendar e é essa incógnita que me deixa cair na rotina sempre imprevisível dos seus beijos e seus amassos. Talvez o brilho da sua barba loira que quando crescida faz arrepiar cada poro da minha pele só por nela encostar, tenha se aliado aos seus olhos de gato, dominadores de cada milímetro do meu corpo que a esta altura, desnudo, só pede pelo seu e, em conjunto, armaram um plano contra minha espontaneidade na sua presença e tiveram como resultado a inércia que sou ao seu lado. É ridiculamente assim que me sinto toda vez que me aproximo do jato de sedução que vejo em você: anestesiada. Não sei pensar por mim e tropeço nas palavras em cada tentativa de dizer algo que eu, quando sozinha, me encorajo em dizer, mas sempre que meu discurso te encontra, se choca e, se dissolve na submissão com a qual te encaro e não hesito em mostrar para quem quiser enxergar.
     Não gosto de te ver assim, longe, enquanto eu fico na obrigatoriedade de me ater do outro lado da rua, da cidade, da vida – no qual você não está – como prova de resistência, amor próprio, e tentando te mostrar que “Tá vendo?! Eu sei sobreviver sem você.”, enquanto na verdade, estou de fato perdida em meus pensamentos e nas mil possibilidades que minha cabeça confusa e sem respostas insiste em me enlouquecer a cada nova suposição. Uma mulher diferente, mais uma festa, outro corpo e mais um copo, as mãos por entre outros fios longos, lisos ou ondulados, loiros ou castanhos, novos objetivos e mudança de interesses. Por onde anda você nessas estradas cidade à fora, nesses caminhos que me distanciam cada vez mais da volta da minha felicidade, momentânea, mas intensa e sincera? Deixo que o destino cumpra o papel de me responder todas as dúvidas que você me traz e tento, na calmaria que sempre me acompanha, manter meus passos estáveis frente à você que nunca é.
     Se estou apaixonada? NÃO. E nego quantas vezes me perguntarem e concluírem por si só mesmo diante da minha resposta contrária ao que se vê. Não posso, não devo, não é o melhor pra mim. No kit que você me traria caso isso acontecesse, ganharia apenas a saudade em um fluxo cada vez maior, a falta de reciprocidade nas demonstrações afetivas que me deixariam incrédula da sua felicidade, e uma constante falação repetindo que homem bonito só sabe dar dor de cabeça e, eu assistindo o jogo todo de camarote, teria de confirmar. Ah, e é claro que jamais deixaria de citar que quando a sorte se virasse contra mim, o primeiro sinal de que eu deveria ao máximo ter evitado que qualquer transtorno amoroso se alastrasse em meu coração seria o ‘belo’ presente com o qual você enfeitaria minha cabeça. Por essas e outras, prefiro dizer que o que sinto é saudade, assim, descompromissada, conveniente, carnal – que me faz querer te devorar e te infiltrar por inteiro, e te marcar no meu pescoço, e me marcar nas suas costas – racional e periódica, que quando se vai é quando você vem, e me acalma, e me afaga, e me satisfaz, e me preenche, e me entontece, e que quando vem, é quando você se vai, e me dilacera, e me contesta, e me aflige, e me enraivece, e me entristece, deixando sempre essa angústia sedenta, essa vontade de flash-back, fazendo com que eu permaneça assim como tenho estado em momentos parecidos com... agora!