segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Demora, mas muda


     Eu sempre quis a liberdade, a não obrigação em dizer pra onde vou e com quem estou, o compromisso com o que é descompromissado, e que tem sido parte dos meus afetos desde que nos esbarramos por aí, e hoje, humana que sou, não consigo viver sem. Saio com uma interrogação em mente, confio no que o destino me reserva e destemo as aventuras que ele possa, eventualmente, me trazer. O salto alto permanece até o fim da festa, ainda que meus pés tentem me avisar através da dor que eles sequer deveriam ter saído de dentro do armário. Banheiro é lugar de descobrir as novas amizades que parecem ter sido feitas há anos. As batidas da música eletrônica – incansavelmente repetitiva – penetram no ouvido, alcançam o cérebro e lá permanecem por toda a noite. Imagem final: maquiagem borrada, olhos confundíveis com os de um panda, passos trocados com dificuldade de equilíbrio – o álcool responde por isso –, um beijo ou outro dado por uma simples atração momentânea e no dia seguinte, a dor de cabeça.
     Dói não só a cabeça em si e os dedos que foram massacrados pelo bico fino e o salto quinze. Vem acompanhada do comprimido e de um copo d’água que, juntos, espero que façam milagre em questão de minutos, a dor moral e a pergunta sempre na ponta da língua: “O que aconteceu ontem?” É certo que por bons tempos me diverti dessa maneira assim como a felicidade está em uma barra de chocolate pra uma mulher na TPM, entretanto, não afirmo mais com tanta convicção que é esse o tipo de vida que realmente liberta, mas a propósito, tenho que me libertar de quê? Acredito que do medo, da frustração e das desilusões antecedentes. Quem já trucidou qualquer fio de esperança nas palavras que saem da boca de alguém que esteve a um milímetro de tocar meus lábios, ou que até mais longe já foram, e me fizeram acreditar em princesas e príncipes encantados que vivem felizes para sempre, provavelmente tenha grande parcela de culpa pela superficialidade com a qual às vezes ajo. Na verdade tudo isso que chega a ser visto pela sociedade como erro, pra mim não passa de proteção para comigo e com meu ego. Bônus e ônus. Com tanta leveza ao levar a vida, as estações vão se misturando e o que seria confortável e prazeroso, passa a ser vergonhoso e mal dito – quase sempre pelos homens – que explicam o porquê de tanta repulsão com quem só quer aproveitar a vida (assim como eles) com uma única e indignante justificativa: “Mas eu sou homem.” Não preciso de mais nada que faça minha ira crescer em um espaço de tempo tão curto; nem xingamentos, nem provocações. Daí mesmo que nasce essa vontade louca de sair e fazer tudo o que der na telha na primeira oportunidade que aparecer, pra acabar com esse machismo mesquinho que controla a cabeça de tantos “homens” hoje em dia, porém, mesmo depois de décadas de luta, a voz grave e os pelos no rosto ainda sobressaem todo tipo de feminilidade.
     Em qualquer tópico que se discuta, a ponderação é sempre vista como primordial e eu, libriana nata, tento representar o símbolo que o zodíaco dispõe para os nascidos na primavera. Na balança, equilibro-me. Busco pela dosagem certeira entre minha razão – que pede a todo instante que eu jamais me deixe levar pelos sussurros cantados ao pé da orelha que querem me testar até o último nível do domínio do meu psicológico – e a minha emoção – que abomina essa resistência racional em querer responder por todos os atos do coração que nunca são pensados e sempre sentidos. Falho. Sou mais amores e menos temores; rejeito as hesitações e me disponho sempre a conhecer o novo, ainda que meu histórico, todavia marcante, continue me habitando. E isso é bom! Bom, porque deixa de fazer sentido a superficialidade já dita aqui mesmo e me faz querer partir na direção de algo mais intrínseco. Bom, porque em um momento, se torna cansativo voltar pra casa com a sensação vazia de ter abraçado o mundo em uma noite e reconhecer que de nada adiantou os flashes de loucura se a vontade era ter um peito pra amparar minha cabeça de pensamentos tão turbulentos e inconstantes quando eu me deitasse e adormecesse.
     Não imaginava que tão cedo me viria esse desejo que ainda é difícil de engolir, já que por tanto tempo achei desnecessária e problemática a relação estável entre dois corações. Satisfações, discórdias, ciúmes e tolerâncias (ou a falta de todos eles) me fariam desistir com facilidade. Por outro lado, agradeço por ter essa disponibilidade que sempre me deixa tentar; novas experiências, novas pessoas e, quem sabe por conseqüência dessa abertura que dou à vida, passar por cima de todos os pré-conceitos que um dia dei a uma relação VERDADEIRA, dessas apaixonadinhas mesmo, que me acorde com uma mensagem de bom dia e saiba os lugares estratégicos pra me fazer cócegas e me levar ao riso sem moderação, ou ainda ser presenteada com flores, porque toda mulher por mais moderna e dona de si que seja, esconde em seu interior a sensibilidade e a satisfação em se sentir querida. Estou nesse grupo.

domingo, 14 de agosto de 2011

"... Mas chegou ao fim"


     Olha, eu prometi pra mim mesma que não iria mais escrever qualquer palavra sobre você, mas é isso o que melhor sei fazer sempre que me encontro tão tangível, bem como tenho estado hoje. Não tenho mais o que falar e ainda assim escrevo, apago e reescrevo, buscando nas linhas de cada folha, a cada nova palavra, uma tentativa, um meio de colocar pra fora tudo isso que me consome e então tentar te expulsar de dentro de mim como quem joga fora tudo o que já não é mais útil para si – contas pagas, roupas velhas, amores irreversíveis. Mas não consigo e não há adjetivos, comparações ou metamorfoses que exprimam e entendam o que se passa nesse caminho tão estreito e seletivo no qual meu coração se transformou e que é o lugar em que você vem bravamente se encaixando com total liderança há tempos.
     Começo te pedindo desculpas caso você se sinta exposto quando te descrevo. Tudo o que eu não quero é que você se incomode com qualquer lembrança que em mim é mantida viva e, ainda que camuflada nas turbulências do dia a dia algumas vezes, destacam-se imediatamente quando te vejo. É assim mesmo, sem exageros ou hipérboles: os segundos que tenho ao seu lado, mesmo que não mais a sós, são suficientes pra me deixar perdida em meio a caminhos que antes eu poderia traçar de olhos vendados. Ainda sinto uma sensação mista de frio e calor quando você chega. Meu estômago se comprime, a boca seca, as mãos transpiram, as pernas tremem e o coração quase salta sobre suas mãos pedindo por socorro, como uma vítima de alguma tragédia que perde tudo o que tem, pois assim estou: perdida e desabrigada de ti.
     Já me tornei repetitiva e disso eu tenho consciência, entretanto é desesperador ter que abraçar o travesseiro, (já encharcado de lágrimas) como consolo, por eu não poder te envolver em mim e sentir que meus braços não se encontram quando te abraço porque você é maior que eu. E dói. Dói como nenhuma outra dor. Dói mais do que um arranhão, um corte, ou alguma parte do corpo que é quebrada. Dói porque não tem comprimido nem homeopatia que cure a saudade. Dói e dá vontade de abrir o peito, partir pra ignorância, te devolver o que é só seu e dizer “toma, agora se vira e vê se cuida direito, hein?!”
     Já não há mais espaço pra mim, nem mesmo físico porque nos incomodamos com a presença um do outro e isso está escancarado na cara de tacho que fazemos quando nos vemos, ou melhor, quando não nos vemos, porque falta nexo até para uma troca de olhares, fracionária nos segundos, que seja, que não deixa disfarçar a inconveniência e a falta de suporte de um ambiente para dois corpos conturbados e carregados, mas talvez até seja melhor assim, pois te estranho, quando passa por mim, vejo que é só mais uma pessoa pra cumprimentar – quando estou em público – e, agora, mais raro do que nossas trombadas num bar ou na casa de um amigo, é a falta de um elo que não sei qual é, mas que já nos ligou.
     Não peço mais que você volte, e sim que vá. Siga sua sina, abrace sua sorte e viva seu caminho da melhor forma que puder. Tenho a plena confiança de que será feliz da forma que quiser, e esta felicidade certamente será fruto de todos os seus princípios que são fonte da minha berrante admiração. Enquanto isso eu te assisto aqui do outro lado com o carinho de quem aprendeu, caiu e hoje tenta se reerguer do tombo de quem a derrubou com aparentes boas intenções.
     Ignore qualquer prova – óbvia, inesperada ou incompreensível – do meu amor se você quiser e me ignore também, mas respeite e não julgue. Não o sentimento, mas qualquer atitude que possa ser conseqüência dele e pela última vez, acredite, ele existe!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Nostálgica


     Sinto o cheiro da sala e o barulho da televisão que noticia o cotidiano do estado vizinho. Mais alguns passos e me deparo com o espelho que por tantas vezes me viu arrumar os cabelos e amarrar a canga na cintura e, quando me viro de costas, involuntariamente, espero te ver deitado na cama que um dia eu chamei de “nossa”.
     Reviver cada momento da etapa que certamente dividiu a minha vida em antes e depois de você, não foi nada fácil por um simples e estrondoso motivo: sua ausência. Digo simples porque não tenho mais justificativa alguma para a minha decadência repentina de humor enquanto me desloco da varanda em direção à piscina, a não ser a falta do seu peito sem camisa, ou seus pés à minha vista calçando chinelos de dedo. Estrondosa, pois mesmo estando tão longe, minha cabeça puxava como um ímã o timbre da sua voz que agora me tortura por não mais tê-la mesmo que fosse para ouvir seu tom nas brincadeiras, que era quase sempre agressivo, rude e sem um pingo de doçura.
     Volto no tempo em meu mundo criado a partir de você e me isolo no conforto que as memórias suavemente infernais me trazem e que eu me lembro como se estivessem acontecendo hoje, já que diariamente – e sozinha – me recordo dessa espécie de paraíso que você me deu. Ver seus olhos descansados e poder te fazer relaxar, massagear suas costas e, acariciar seus cabelos mostrava a forma mais sensível com a qual eu retribuía os seus cuidados com a minha distração e tão notável inexperiência. Acordar imóvel por seus braços, era a maneira mais linda de começar o dia que já havia dado os cumprimentos há horas, mas, deixa o relógio despertar, o sol se pôr e a lua cair; não tinha com o que me preocupar se minha única preocupação estava ao meu lado, visivelmente em paz e se incomodava apenas com a luz do sol que naquele momento invadia o quarto pela fresta da janela sem nos pedir permissão.
     Conheço de você uma pessoa que tira todas as palavras que meu vocabulário conhece só para me deixar sempre assim, a mercê de seus pensamentos e interesses, mesmo que os meus fossem (e sempre eram) tão contrários aos que me dominavam a cada vez que você abria a boca e cogitava mostrar o sorriso que já me fez e, indiscutivelmente, ainda me faria perder a cabeça com tanta maestria. Seu jeito sempre disposto a ajudar nos serviços braçais, de força e coragem me provam a sua masculinidade quando não se mostra ser só mais um bruta-monte preocupado com os músculos e a fila de menininhas que ainda tem pra pegar e, confirma isso tendo opinião em todos os assuntos que debate, seja para falar da cerveja na sexta, do jogo de futebol no domingo, do vestibular na segunda, ou do trabalho de daqui a alguns anos, sempre com total domínio sobre o que discursa.
     Te vejo homem, ainda que discordem de mim, e é essa a imagem que fica apesar de todos os martírios que passei enquanto lutava desesperadamente por você, sendo que na maioria das vezes, estava sem qualquer tipo de instrução que me guiasse para o caminho certo até seu coração. Compreendo que me precipitei, me perdi, buscava tanto por um erro seu que me pusesse em vantagem na nossa história, que acabava sempre por derrubar um balde de água fria em qualquer pedacinho que pudesse colar essa peça de porcelana – tamanha delicadeza da nossa situação – que um dia fomos, ao te ver jogando na minha cara sua compreensão tão clara e objetiva de tudo que eu nunca consegui entender: seus pensamentos.
     Sim, no passado, fomos. Não mais presente, quem sabe, futuro. Te espero hoje assim como ontem, mas não como antes e, mesmo se não voltar, terá sempre seu espaço reservado em meu coração, que hoje está em paz, consciente e conformado da calamidade que não pôde ser evitada. Deixo as águas correrem, os anos passarem, as idéias amadurecerem, e os verdadeiros sentimentos aflorarem, pois sei que de alguma forma, representei algo para você. Só te peço que não duvide. Mesmo que não acredite, jamais ouse duvidar de cada palavra que eu tive a coragem de te dizer nos meus momentos mais fracos, quando eu deixei de lado todo e qualquer orgulho que ainda me restasse para te mostrar da maneira mais sincera que o que eu digo, é o que sinto, ainda que em solidão, e sem nenhum motivo que me estimule a seguir adiante nesse oceano que me encorajei em navegar, do qual você mal conhece uma gota, mas que persisto com algum intuito que só o tempo poderá me fazer descobrir qual é.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Deponho a saudade


     Escrevo, pois tenho a sensação de que essa é a única maneira de me colocar mais perto de você e de tudo aquilo que por um dia eu tive como eternidade, mas que se foi tão rápido como quando veio, e hoje é o que peço desesperadamente que volte para me fazer sentir outra vez as mínimas sensações, próprias de cada encontro que era tão similar a todos os anteriores, mas ao mesmo tempo tão únicos como se estivéssemos vivendo cada detalhe um do outro pela primeira vez. Sua experiência me acalmava na calada da noite e me dava a certeza de que presa em seus braços eu estaria protegida de qualquer maldade que pudesse me cercar. Com o tempo, vendo como decorreu nosso envolvimento, mesmo sabendo da superficialidade com a qual você enchia a boca para me fazer acreditar nas suas promessas válidas por não mais que uma madrugada, queria me convencer de que o que eu vivia ao seu lado se tornaria – aos poucos – amor.
     Há algo de misterioso em você que não consigo desvendar e é essa incógnita que me deixa cair na rotina sempre imprevisível dos seus beijos e seus amassos. Talvez o brilho da sua barba loira que quando crescida faz arrepiar cada poro da minha pele só por nela encostar, tenha se aliado aos seus olhos de gato, dominadores de cada milímetro do meu corpo que a esta altura, desnudo, só pede pelo seu e, em conjunto, armaram um plano contra minha espontaneidade na sua presença e tiveram como resultado a inércia que sou ao seu lado. É ridiculamente assim que me sinto toda vez que me aproximo do jato de sedução que vejo em você: anestesiada. Não sei pensar por mim e tropeço nas palavras em cada tentativa de dizer algo que eu, quando sozinha, me encorajo em dizer, mas sempre que meu discurso te encontra, se choca e, se dissolve na submissão com a qual te encaro e não hesito em mostrar para quem quiser enxergar.
     Não gosto de te ver assim, longe, enquanto eu fico na obrigatoriedade de me ater do outro lado da rua, da cidade, da vida – no qual você não está – como prova de resistência, amor próprio, e tentando te mostrar que “Tá vendo?! Eu sei sobreviver sem você.”, enquanto na verdade, estou de fato perdida em meus pensamentos e nas mil possibilidades que minha cabeça confusa e sem respostas insiste em me enlouquecer a cada nova suposição. Uma mulher diferente, mais uma festa, outro corpo e mais um copo, as mãos por entre outros fios longos, lisos ou ondulados, loiros ou castanhos, novos objetivos e mudança de interesses. Por onde anda você nessas estradas cidade à fora, nesses caminhos que me distanciam cada vez mais da volta da minha felicidade, momentânea, mas intensa e sincera? Deixo que o destino cumpra o papel de me responder todas as dúvidas que você me traz e tento, na calmaria que sempre me acompanha, manter meus passos estáveis frente à você que nunca é.
     Se estou apaixonada? NÃO. E nego quantas vezes me perguntarem e concluírem por si só mesmo diante da minha resposta contrária ao que se vê. Não posso, não devo, não é o melhor pra mim. No kit que você me traria caso isso acontecesse, ganharia apenas a saudade em um fluxo cada vez maior, a falta de reciprocidade nas demonstrações afetivas que me deixariam incrédula da sua felicidade, e uma constante falação repetindo que homem bonito só sabe dar dor de cabeça e, eu assistindo o jogo todo de camarote, teria de confirmar. Ah, e é claro que jamais deixaria de citar que quando a sorte se virasse contra mim, o primeiro sinal de que eu deveria ao máximo ter evitado que qualquer transtorno amoroso se alastrasse em meu coração seria o ‘belo’ presente com o qual você enfeitaria minha cabeça. Por essas e outras, prefiro dizer que o que sinto é saudade, assim, descompromissada, conveniente, carnal – que me faz querer te devorar e te infiltrar por inteiro, e te marcar no meu pescoço, e me marcar nas suas costas – racional e periódica, que quando se vai é quando você vem, e me acalma, e me afaga, e me satisfaz, e me preenche, e me entontece, e que quando vem, é quando você se vai, e me dilacera, e me contesta, e me aflige, e me enraivece, e me entristece, deixando sempre essa angústia sedenta, essa vontade de flash-back, fazendo com que eu permaneça assim como tenho estado em momentos parecidos com... agora!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mulher de peito


     Estatura baixa, cabelos longos, riso fácil. Pela descrição, uma menina normal, provável de se ver em uma loja, no shopping, ou sentada em uma mesa de bar. É boa de conversa até. Gargalha e não teme os vexames que dá entre um mal entendido ou outro. Desenvolveu repentinamente, talvez pela ajuda da dança. Teve os músculos enrijecidos e trabalhados pelo ballet, rotulado coisa de menininha, mas era mais do que sua vontade ver qualquer um que paga de machão ter força para sustentar uma perna no ar sem perder a respiração correta, lembrar de estender os joelhos e para finalizar, sorrir e fazer o movimento parecer leve, prazeroso. É... só quem pratica sabe do esforço invisível por fora, e torturante por dentro que é exigido entre um plié ou um tendue.
     Não se acanha em exibir os músculos que tanto gosta e usa sim saias e shorts que mostrem as pernas saradas – resultado positivo do esforço que era semanal. Até aí, tudo bem, mas se junto da saia, casa com ela uma blusa de alcinha... Pronto, o caos se inicia. E tudo isso por um mínimo detalhe que ela sequer tem culpa. Não escolheu, nem ao menos optou no tamanho de seu problema, que na verdade, parece incomodar mais os outros do que a própria dona: peitos! Os genes que vieram do pai e da mãe se encarregaram de trazê-la tantos comentários, que às vezes de tão desnecessários, teriam de ser relevados para evitar qualquer tipo de constrangimento, complexo ou incômodo.
     “Deve ser biscate.” “Não se valoriza.” “No mínimo a família não dá o exemplo.” “Uma maçaneta com certeza é mais limpa do que a boca dela.” “Tem cara de quem pega e logo em seguida descarta.” “Não se dá o respeito.” “Não anda com boa gente.” Sim, meus caros, tudo isso sai da boca de quem precocemente julga alguém que nem conhece e tenta dar a ficha completa do “produto” atirando em sua direção dos pés à cabeça, sem deixar de dar prioridade a qualquer característica que possa fazer repercutir os pensamentos maliciosos.
     A indignação da menina era imediata. Como poderiam fazer um completo raio-x da moça baseando-se em reflexos do crescimento – que é natural em todos – ? Isso significa que antes da puberdade, ela até serviria para coisas úteis, quiçá pudesse ser uma garota prodígio, seja nas artes, no esporte ou nos estudos, mas depois que cresceu e tomou formas, é vista como uma espécie de catálogo de maus exemplos? De fato, o pré-conceito humano chega a ser lamentável.
     Ainda que fosse só através da boca de pessoas desprezíveis que ela fosse alvejada por tanta baixaria, nem tudo estava perdido, porém, tal calamidade prolifera na mente de pessoas que a conhecem por um ou dois encontros casuais e fazem uma imagem totalmente denegrida do que poderia ser provado o contrário, provocando um estrago ainda maior: a aproximação interesseira de algumas pessoas – sempre do sexo oposto.
     Eles sempre vêm com segundas intenções. Na noite que poderiam suceder, no corpo que estaria à suas disposições, no sutiã que desabotoariam com tanta selvageria e, se esquecem que por trás de toda aquela capa revestida de rendas ou algodão, há uma cabeça que pensa e um coração que sente. Há alguém que não é biscate! Que se valoriza, sim! Que tem uma família exemplar, com toda certeza e certamente é mais limpa do que qualquer porta. Se ela pegou e descartou, acredito que teve seus motivos, e conseqüentemente, se valorizou, afinal, que se levante e atire a primeira pedra o homem que nunca pecou com uma mulher e, por fim, declara que anda sim com boa gente e que talvez foram essas que fizeram com que a abençoada na comissão de frente passasse a enxergar seu corpo como um presente e não como um castigo. Até porque, como é bom poder diversificar os mais variados modelos – que são inúmeros –, cada um para a ocasião que se tem em mente, indo do cor de rosa com babadinhos e bolinhas brancas estampando a menina que habita o corpo de cada mulher àquele vermelho-vinho, de renda, que exala sensualidade. Como é bom poder preencher um sutiã que dê o encaixe perfeito no corpo e sem dúvidas faz qualquer mulher se sentir mais dona de si, poderosa e desejada, mas não por um bando de trogloditas que só sabem pensar com a cabeça inferior, e sim por poucos, que por elas serão escolhidos á dedos e se um dia merecedores, serão donos de uma felicidade indescritível oriunda de uma mulher de peito, e não só de seios, desconhecida do olhar vago e egoísta de simples seres animalescos que por muitas vezes jogaram no lixo o que poderiam ter ganhado de mais valioso, e que estava escondido para que apenas o mais digno encontrasse, mas que a carne - como barreira - impossibilitou os outros de vê-lo: seu coração!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Amar X Desejar


     Já não bastasse os inúmeros empecilhos com os quais convivo diariamente para me manter estática frente às infindáveis recordações que tenho em mente sobre meu primeiro grande amor, assisto a chegada de outro guerrilheiro na pacatez em que minha vida se encontra e vejo que o conflito será duradouro.
     De um lado, aquilo que eu construí de mais belo e maduro. Meu eterno exemplo de determinação, boas condutas e merecedor da minha plena admiração nos mais diversos aspectos. Mesmo que conhecido de longas datas, foi inesperadamente que passou a ter tamanha relevância em tudo o que hoje julgo necessário em meu cotidiano e ao anoitecer, em meu subconsciente, sempre que protagoniza meus sonhos, me fazendo amá-lo a cada dia com mais fervor. Do outro, alguém comparável a um furacão ou algum outro fenômeno natural equivalente, notado em qualquer esquina que venha a cruzar devido à sua beleza não menos que exuberante. Deste, mal pude conhecer os (bons) valores. Por falta de tempo ou interesse, o que ficou foi a pressa da carne em mostrar quem liderava aquele jogo. Sem mais delongas, apenas prazer. A conversa?! Ah, esta fica para depois, em um próximo encontro que quando chega, é tomado por pura luxúria e deixa qualquer mísero diálogo para segundo plano mais uma vez, e eu ainda assim o desejo, mesmo consciente do meu pecado, desejo! Estou entre os gladiadores que mal sabem de suas inegáveis participações em mim. Permaneço de mãos atadas sem saber para que lado partir, apenas acompanhando a maré que meu corpo e meu coração por hora ordenam.
     Tal diferença de sentimentos que eles me despertam me indaga. É possível que alguém ame uma pessoa e sinta um desejo arrebatador por outra? Estaria eu traindo o sentimento por quem tenho tanta fidelidade? Ou então abusando de alguém toda vez que quero sua pele e suas formas? A partir da minha constante reflexão, sou tomada pela culpa, pela dúvida e pelas incertezas que só aumentam minha aflição diante da falta de uma resposta exata para este tipo de distúrbio emocional.
     Quanto à armadura, ambos desfrutam de igual proteção. O sorriso paradoxal que me busca do céu e me leva ao inferno é neutralizado por um novo olhar, fixo e fuzilador. Os cabelos quase loiros se contrastam com o outro que é preto. A barba que às vezes é falha em X, mostra-se com total freqüência em Y. O corpo de músculos desenhados e curvas atraentes duela com uma cabeça surpreendentemente sábia. O estilo alternativo de um em contrapartida com o conservadorismo do outro. E mais uma vez eu, entre amar e desejar.
     Um minuto a mais pensando na pergunta que desencadeou todo esse transtorno e a resposta vem à tona: Não! Não estou errada! Não vou ser guilhotinada em praça pública porque me vi maior do que sobras de carinho aliadas em pena! Não mereço viver a vida de quem já se completou amorosamente! Não devo satisfações a quem me procura quando já não vê mais nada conveniente a si próprio às cinco da manhã! Não sou culpada por apenas querer o corpo de quem faz o mesmo comigo! Não tenho que viver como se estivesse segurando uma senha, aguardando que chamassem pelo meu nome! E por fim, não! Não estou revoltada, apenas desacreditada; das possibilidades, das oportunidades e também das pessoas e de suas (boas) intenções.
     Ainda que caindo como um bebê que aprende a trocar os passos, vou dando minha cara à tapa e descobrindo o mundo e os seres que me cercam; e quem se encarregou de fincar essa desconfiança em mim, foram os próprios inquilinos que hoje são meus credores – morais e emocionais. Eu, que quase sempre tenho a inocência de acreditar na palavra das pessoas, venho acordando forçadamente de dois sonhos lindos que por falta de reciprocidade deixaram de acontecer. Em uma das circunstâncias, não pude mostrar o quanto é rico o que possuo e como poderia retribuir todos os aprendizados que me foram oferecidos. Já na outra, ainda há a possibilidade de eu encontrar algo que perdure mesmo não sabendo quais os prós e contras dessa aventura. O que me resta é abstrair qualquer tipo de esperança que se faz valer em mim para que então eu deixe de viver sozinha o que sempre me vendem em conjunto – de amores, idealizações e no mais tardar desilusões.

domingo, 12 de junho de 2011

(Re)conhecendo-o


     Profissional na arte da lábia e da boa conquista, ele começa a preparar seu território outra vez depois de ter recuado repentinamente. É indispensável fazer o jogo do bom moço; elogiar e dizer que sente saudades para que passe longe dos meus pensamentos embaraçados que qualquer tipo de atitude digna de um cafajeste nato possa vir de sua parte. Dito e feito!
     Eu logo de cara acreditei em uma maturidade de afetos que me foi vendida. No pacote promocional, um jogo de belas palavras e aparentes boas intenções pelo preço da minha talvez impagável paz de espírito e do bem estar do meu ego. Tarde demais! O produto era pirata, e nota de garantia eu não tinha. Saldo final: uma dívida não paga, sozinha.
     Ainda assim eu não me proibi. Mesmo que com a cabeça mais centrada do que no princípio, atendi às chamadas durante a madrugada e deixei que ele me puxasse de volta para seu redor.
     O celular toca enquanto o dia amanhece lá fora. Em uma hora tão improvável, e sem nenhuma esperança de sua presença, fico surpresa ao saber que a noite ainda não tenha acabado. Espero então, de maneira ansiosa para ter em mãos aquele homem que me faz perder as palavras quando tento defini-lo. Talvez ele nem seja merecedor desse pedestal que venho construindo a cada novo encontro, já que insiste em fazer do que poderia ser belo, nada mais do que superficial, entretanto seu poder de atração me vence e eu o recompenso como posso.
     Quando ele chega, meus passos – trêmulos e apressados – se aproximam gradativamente daquilo que para mim é o paraíso, o ápice da boa sorte. Ao entrar no carro, um beijo breve saúda minha boca e então uma sensação de ternura toma conta de mim. O perigo acena em minha direção, insinuando que qualquer excesso afetuoso pode devastar este motor pelo qual estou ali: meu coração; porém, a esta altura só tenho olhos para a sedução que é atirada em mim com tanta intensidade.
     Ao mesmo tempo em que dirige, me pergunta como estou e com quem eu estava, me fazendo acreditar que ele até possa se preocupar comigo, e eu, estonteada por sua voz grave, abdico de qualquer resquício racional para me entregar de vez à tentação.
     Paro e admiro incansavelmente essa espécie de escultura-natural-humana que se põe em minha frente. Cada minúcia é única e me satisfaz inteiramente mesmo que sem nenhuma razão... apenas me agrada. A corrente prata envolta no pescoço, a autenticidade nas roupas que veste, e até o poder de persuasão – quando me faz ouvir músicas que por anos condenei e dizia não gostar – mesmo que sem o seu conhecimento sobre tal. E depois me dilacera por ser assim, pássaro, águia que enxerga longe, além dos limites da cidade e é livre de qualquer outro ser local que queira sua presença, tem seu próprio caminho e nele anda como bem entende, enquanto eu, presa na minha menoridade tento me confortar com as vezes em que ele aparece sem aviso prévio já sabendo que estou pronta para recebê-lo sem questionar sua ausência que é sempre presente, sem ter a preocupação de ouvir cobranças que mesmo necessárias me falta coragem para fazer, sem qualquer compromisso em ter que ligar no dia seguinte para ouvir como eu estou e o que tenho pensado em relação a nós – plural que talvez seja inexistente em sua cabeça tão egocêntrica.
     Por todas as razões claras que tem me mostrado e que eu ingenuamente fazia questão de não acreditar, presumo hoje que o príncipe encantado não exista, quiçá existiu. Anda em um sentido contrário ao que me mostrou quando em sua primeira tentativa de me ter não hesitou em exibir, vangloriando-se de sua conduta em relação a relacionamentos e me convencendo de que tudo o que passei, o bom samaritano estaria disposto a me dar de maneira diferente e correta. Caiu em contradição e perdeu-se em suas próprias palavras, ou então, perdi-me em suas mentiras gritantes onde transborda apenas interesse. Não sei, e jamais saberei o que realmente aconteceu, mas como diria Caio, “Que seja doce!” e assim foi!